Para quem conduz, a primeira sessão de um utente é muitas vezes a vigésima da semana. Para o utente, é a primeira vez que alguém lhe põe uma coisa na cabeça e lhe diz que vai ver uma praia. A diferença entre as duas perspetivas explica a maior parte das primeiras sessões que correm mal.
Este guia é para os profissionais que conduzem sessões com o RVer — de animação, terapia ocupacional, enfermagem, psicologia ou outras áreas. Quem pode conduzir, e com que formação, está em quem pode conduzir uma sessão.
Antes de tudo: o momento e a pessoa
A primeira sessão não se marca para «quando houver tempo». Escolhe-se.
- O utente. Para começar, alguém que esteja estável nesse dia, com quem a equipa tenha uma relação de confiança, e que tenha mostrado alguma curiosidade. Não é a altura de começar pela pessoa mais agitada da casa.
- O momento. Uma hora em que a pessoa costuma estar bem — muitas vezes de manhã ou no início da tarde —, longe das refeições, da medicação que dá sono e da hora de maior movimento.
- O sítio. Um canto calmo, sem televisão ligada e sem pessoas a passar. Uma cadeira estável, com braços, onde a pessoa se sinta segura.
- O lugar a mostrar. Um sítio que a pessoa conheça ou de que goste: a praia onde passava férias, a igreja da terra, um jardim. A ferramenta gratuita «História de vida», em /ferramentas/, ajuda a reunir isso antes.
- O equipamento pronto. Headset carregado e limpo, conteúdo escolhido, app Companion ligada à mesma rede Wi-Fi — para que nada disto aconteça com a pessoa à espera.
Explicar com palavras simples e mostrar o headset
A explicação deve caber em duas frases. Por exemplo: «Isto é como uma televisão que se põe à frente dos olhos. Vai ver uma praia como se estivesse lá. Se não gostar, tiramos logo.»
Algumas regras que ajudam:
- Falar de frente, ao nível dos olhos, antes de o headset estar posto. Depois, a pessoa deixa de ver a sua cara.
- Evitar palavras técnicas. «Realidade virtual», «vídeo 360°» e «imersivo» não ajudam ninguém a decidir.
- Dizer sempre que pode parar. É a frase mais importante: dá à pessoa o controlo e reduz a ansiedade.
- Combinar um sinal para «chega» — levantar a mão, por exemplo — para quem fala pouco ou ouve mal.
- Perguntar se quer experimentar. E aceitar a resposta. O que fazer quando a resposta é «não» está em quando o utente recusa.
Muitas pessoas ficam mais tranquilas quando podem pegar no headset antes de o terem na cabeça.
- Deixar a pessoa tocar-lhe, sentir o peso, ver por onde se olha.
- Mostrar onde fica apoiado — na testa e na cara, com a fita atrás da cabeça.
- Confirmar se usa óculos de ver ou aparelho auditivo, e ajustar com cuidado.
- Colocar devagar, de frente, a dizer o que se está a fazer. Nunca por trás e de surpresa.
- Ajustar até estar confortável, sem apertar. Um headset desconfortável estraga qualquer cenário.
Lá dentro: começar sentado, num lugar conhecido
Os primeiros minutos dentro do headset são os que contam.
- Sempre sentado. A primeira sessão faz-se sentado, ou deitado com o modo próprio para isso, nunca de pé.
- Começar por um cenário calmo e conhecido, sem movimentos de câmara rápidos. A pessoa precisa de tempo para perceber onde está.
- Ficar ao lado, com a mão perto. A pessoa não o vê, mas deve saber que está ali. Um toque leve no braço, combinado antes, pode ajudar.
- Perguntar o que vê. «O que está a ver?», «Já esteve aqui?», «De que se lembra?». As perguntas abertas orientam a pessoa e transformam a sessão numa conversa.
- Acompanhar na app Companion o que a pessoa está a ver, para conseguir comentar e responder.
- Curto. Na primeira vez, poucos minutos chegam. A duração de sessões seguintes discute-se em duração e frequência.
Tirar ao primeiro sinal
A regra é simples: ao primeiro sinal de desconforto, tira-se. Não se insiste para «ver só mais um bocadinho».
Os sinais a que estar atento:
- tonturas, náuseas, palidez ou suores — possíveis sinais de cybersickness, descritos em conforto e enjoo;
- mãos a procurar o headset, tentar tirá-lo, cabeça a afastar-se;
- respiração mais rápida, inquietação, choro ou silêncio súbito;
- a pessoa dizer, de qualquer forma, que não quer.
Tirar o headset devagar, dizer onde a pessoa está («Está aqui na sala, comigo»), dar tempo. Uma primeira sessão interrompida não é um fracasso; uma sessão em que a pessoa sentiu que não podia parar é.
Nem todas as pessoas gostam, e não há forma de o saber antes de experimentar. Algumas preferem nunca mais repetir, e isso é uma resposta válida.
Depois: registar como correu
Dois minutos de registo valem mais do que uma boa memória. Vale a pena anotar:
- o que se viu e quanto tempo durou;
- como a pessoa reagiu — o que disse, o que reconheceu, se sorriu, se ficou inquieta;
- se houve desconforto e o que se fez;
- o que mudar na próxima vez — outro cenário, outra hora, menos tempo, outra forma de explicar.
É este registo que permite que a próxima sessão, conduzida talvez por outra pessoa, comece onde a primeira acabou. O que fica visível para a equipa clínica está em o registo de sessão.
Onde o RVer pode entrar, e onde não
O RVer é uma atividade complementar, conduzida por um profissional, e uma primeira sessão bem feita é sobretudo um momento calmo e um ponto de partida para conversa. Não é uma avaliação clínica, não diagnostica nada e não substitui nenhum cuidado. Também não é para todos os utentes nem para todos os dias: há pessoas para quem a equipa clínica entende que não é adequado, e pessoas que simplesmente não querem. Conduzir bem a primeira sessão é também saber aceitar isso.
Em resumo
- Escolher o utente, o momento e o sítio: alguém estável, numa hora boa, num canto calmo.
- Explicar em duas frases, sem palavras técnicas, e dizer sempre que pode parar.
- Deixar a pessoa ver e tocar no headset antes de o pôr; colocar devagar e de frente.
- Começar sentado, num lugar conhecido, com o profissional ao lado a perguntar o que a pessoa vê.
- Tirar ao primeiro sinal de desconforto, sem insistir.
- Registar como correu, para que a próxima sessão comece onde esta acabou.
Este artigo é informativo e não substitui a formação nem os protocolos da instituição. A decisão de propor uma sessão a cada utente cabe à equipa que o acompanha; em caso de mal-estar que não passe depois de tirar o headset, siga os procedimentos clínicos da instituição.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Perguntas frequentes
Quanto tempo deve durar a primeira sessão?
Pouco. Na primeira vez, alguns minutos chegam, e a sessão termina mais cedo se a pessoa quiser ou mostrar desconforto. A duração das sessões seguintes ajusta-se a cada pessoa, com base no que correu na primeira.
A primeira sessão deve ser de pé ou sentada?
Sentada, numa cadeira estável com braços, ou deitada com o modo próprio para pessoas acamadas. Nunca de pé numa primeira sessão.
Que cenário escolher para começar?
Um lugar calmo, sem movimentos de câmara rápidos, que a pessoa conheça ou de que goste: a praia onde passava férias, a igreja da terra, um jardim. A ferramenta gratuita «História de vida» ajuda a reunir esses lugares antes da sessão.
E se a pessoa não gostar?
Tira-se o headset, devagar, e diz-se à pessoa onde está. Nem todas as pessoas gostam, e não há forma de o saber antes de experimentar. Regista-se o que aconteceu e respeita-se a decisão, incluindo a de não repetir.
