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Dor na demência: quando a pessoa não diz que dói

Numa demência avançada, a pergunta «dói-lhe alguma coisa?» deixa de chegar. A dor continua lá, e mostra-se de formas que a equipa pode aprender a ler.

Tema
Gestão da Dor
Leitura
6 min de leitura
Publicado
13 de outubro de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

A pergunta «dói-lhe alguma coisa?» funciona com quem a consegue ouvir, perceber e responder. Numa demência avançada, nenhum desses três passos está garantido. A pessoa pode ter dor e não a dizer, dizer que não quando é sim, ou mostrá-la de uma forma que a equipa lê como outra coisa.

Este artigo é sobre essa outra coisa: os sinais que se veem, as escalas que ajudam a lê-los, e o erro mais comum — chamar «comportamento» ao que é dor.

Porque é que a dor passa despercebida

Em Portugal, a dor é tratada como quinto sinal vital desde a Circular Normativa da DGS de 2003, que manda avaliá-la e registá-la como os outros sinais. Mas as escalas que essa circular propõe são de autoavaliação — a pessoa diz quanto lhe dói — e a própria circular diz que se aplicam a doentes conscientes e colaborantes. Para quem já não consegue responder, são precisos outros métodos.

O resultado é conhecido. A Alzheimer's Society, no Reino Unido, tem chamado a atenção para o facto de a dor ser frequentemente subdetetada e subtratada nas pessoas com demência, precisamente porque nem sempre a conseguem comunicar. E a dor não desaparece por não ser dita: artroses, úlceras de pressão, obstipação, problemas dentários, infeções urinárias, quedas recentes — tudo isto existe numa população que vive muito tempo sentada ou deitada.

Os sinais que a equipa consegue ver

Quem cuida todos os dias tem uma vantagem sobre qualquer escala: conhece a pessoa no seu normal. A pergunta útil não é «parece ter dor?», mas «o que mudou?».

  • Expressão facial: testa franzida, olhos apertados, caretas, um ar assustado ou triste que não é habitual.
  • Respiração: mais rápida, ruidosa, com esforço, suspiros frequentes.
  • Sons: gemidos, queixas, gritos, chamar repetidamente — sobretudo ao mexer.
  • Corpo: tenso, punhos fechados, joelhos encolhidos, proteger uma parte do corpo, afastar a mão de quem toca.
  • Agitação ou o contrário: inquietação, levantar-se e sentar-se, mexer na roupa; ou retraimento, ficar parado, deixar de participar.
  • Recusa de cuidados: resistir ao banho, à mudança de fralda, ao levante, ao posicionamento. Muitas vezes é o movimento que dói.
  • Rotina: comer menos, dormir pior, mais confusão do que o costume, mudanças no andar.

Nenhum destes sinais prova dor. Mas qualquer um deles, se for novo, merece a pergunta.

A PAINAD, e a versão portuguesa

A PAINAD (Pain Assessment in Advanced Dementia) foi publicada em 2003 por Warden, Hurley e Volicer, para pessoas com demência avançada que não conseguem relatar a dor. É curta: cinco itens — respiração, vocalização negativa, expressão facial, linguagem corporal e capacidade de ser consolado —, cada um pontuado de 0 a 2, num total de 0 a 10.

Existe uma versão portuguesa, com adaptação cultural e estudo das propriedades psicométricas publicados por Batalha e colegas na Revista de Enfermagem Referência, em 2012. O estudo foi feito com pessoas idosas internadas, com e sem demência, e os autores concluem que a escala é válida e fiável nesse contexto, recomendando que seja usada por profissionais com formação na sua aplicação.

Três notas práticas, que valem para qualquer escala observacional:

  • Observem em movimento, não só em repouso. Muita dor só aparece no levante, no banho ou ao posicionar.
  • Comparem a pessoa consigo mesma. Uma pontuação vale mais como série — antes e depois de uma intervenção, de um dia para o outro — do que como número isolado.
  • Uma pontuação não é um diagnóstico. Os intervalos «ligeira, moderada, intensa» que muitas vezes se usam com a PAINAD são uma convenção herdada das escalas de 0 a 10, não pontos de corte validados para esta escala. Uma pontuação alta pede avaliação clínica; não a substitui.

Há outras escalas observacionais, como a Abbey Pain Scale. A escolha é da equipa de enfermagem e médica; o que importa é que seja a mesma, aplicada da mesma forma, e registada.

O erro de chamar «comportamento» à dor

«Está agitada», «está agressivo», «recusa tudo hoje». São frases que aparecem nos registos, e que muitas vezes ficam por aí — como se a agitação fosse uma característica da pessoa e não um sinal de alguma coisa.

O NICE, nas orientações sobre demência, recomenda que, perante mudanças de comportamento sem explicação ou sinais de sofrimento, se avalie se a pessoa tem dor, usando uma ferramenta de avaliação observacional se for útil — sem deixar de considerar outras causas. Fome, sede, frio, uma bexiga cheia, uma infeção, um ruído, o fim da tarde: tudo pode estar por trás. Escrevemos sobre a agitação do fim do dia em sundowning.

A ordem importa. Pensar primeiro em dor e noutras causas físicas, e só depois em «comportamento», evita que uma pessoa com dor seja apenas acalmada ou distraída.

Quando chamar a equipa médica

A equipa de cuidados não diagnostica, mas é quem vê primeiro. Chamem a enfermagem ou o médico quando:

  • um sinal de dor é novo, aparece de repente, ou piora de um dia para o outro;
  • a pontuação da escala sobe, ou fica alta em observações seguidas;
  • houve uma queda, mesmo sem ferida visível, e a pessoa deixa de querer apoiar uma perna ou mexer um braço;
  • a dor vem com febre, vómitos, dificuldade em respirar, sangue, ou com uma confusão muito maior do que o habitual;
  • a pessoa deixa de comer ou de beber.

Numa situação grave ou que pareça urgente, liguem 112. Fora da instituição, na dúvida, o SNS 24 (808 24 24 24) ajuda a decidir o que fazer. Registem o que viram, quando e em que circunstância: é essa informação que permite a quem avalia decidir melhor.

Onde o RVer pode entrar, e onde não

O RVer não avalia dor e não trata dor. Não deve ser usado para perceber se alguém tem dor, nem para «distrair» uma pessoa cuja dor ainda não foi avaliada.

Onde pode entrar é depois disso: como uma atividade calma e acompanhada, para alguém cuja situação já foi vista pela equipa clínica, com um profissional ao lado do princípio ao fim. Se antes da sessão houver sinais de dor, a sessão não se faz — chama-se a enfermagem. Se aparecerem durante, para-se. O que o profissional observar fica no registo e chega a quem decide. Para pessoas que já não comunicam, deixámos algumas notas em o doente que já não comunica; e sobre o lugar da realidade virtual na dor em geral, em gestão da dor.

Em resumo

  • Na demência avançada, a pergunta «dói?» deixa de chegar. A dor continua lá.
  • Os sinais estão na cara, na respiração, nos sons, no corpo, na recusa de cuidados e na rotina. O que conta é o que mudou.
  • A PAINAD tem cinco itens, de 0 a 10, e uma versão portuguesa estudada em 2012. Observem em movimento e comparem a pessoa consigo mesma.
  • Uma mudança de comportamento sem explicação pede, primeiro, a pergunta pela dor.
  • Sinais novos, súbitos ou graves vão para a equipa médica; em urgência, 112.
  • O RVer não serve para avaliar nem tratar dor; quando entra, é como atividade calma acompanhada, e para-se ao primeiro sinal.

Este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica. A avaliação e o tratamento da dor são da responsabilidade da equipa médica e de enfermagem; perante sinais de dor, falem com ela.

O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.

Perguntas frequentes

Quais são os sinais de dor numa pessoa com demência que não comunica?

Mudanças na expressão facial, respiração mais rápida ou ruidosa, gemidos ao mexer, corpo tenso ou a proteger uma zona, agitação ou retraimento, recusa de cuidados como o banho ou o levante, e alterações no apetite e no sono. O que conta é o que mudou em relação ao habitual da pessoa.

O que é a escala PAINAD?

É uma escala observacional publicada em 2003 por Warden, Hurley e Volicer para pessoas com demência avançada. Tem cinco itens — respiração, vocalização negativa, expressão facial, linguagem corporal e capacidade de ser consolado —, cada um de 0 a 2, num total de 0 a 10.

Existe uma versão portuguesa da PAINAD?

Sim. Batalha e colegas publicaram a adaptação cultural e o estudo das propriedades psicométricas da versão portuguesa na Revista de Enfermagem Referência, em 2012, em pessoas idosas internadas com e sem demência. Os autores recomendam que seja aplicada por profissionais com formação.

A realidade virtual pode ser usada para avaliar ou tratar a dor na demência?

Não. O RVer não avalia nem trata dor. Pode entrar como atividade calma e acompanhada, para alguém já visto pela equipa clínica; se houver sinais de dor antes, a sessão não se faz, e se aparecerem durante, para-se.

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