É um dos pedidos que nos chegam com mais entusiasmo e menos preparação: queremos pôr isto no bloco de partos. O entusiasmo tem fundamento na literatura. A preparação é o que decide se aquilo passa da terceira semana.
O que a evidência mostra
Duas sínteses, e o que cada uma acrescenta.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na JMIR Serious Games reuniu 12 estudos com 1095 participantes, procurados em sete bases de dados, sobre o uso de realidade virtual na gravidez e no parto. Avaliou dor, ansiedade, duração do trabalho de parto, satisfação e eventos adversos, e é este último desfecho que mais interessa a um serviço: a revisão foi desenhada para responder à segurança, não só à eficácia.
Uma revisão integrativa de 2025, na Pain Management Nursing, rastreou 1227 estudos e incluiu 13 (10 dos quais ensaios aleatorizados), juntando aos resultados quantitativos a experiência das próprias mulheres, que é a parte normalmente ausente das meta-análises.
A leitura conjunta, sem esticar: os ensaios apontam de forma consistente para redução da dor referida e da ansiedade durante o trabalho de parto, com boa aceitação e sem sinal de dano. E, como as próprias autoras assinalam, a heterogeneidade entre estudos é alta e o número de participantes é pequeno para a variabilidade que um parto tem. É evidência encorajadora, não é evidência fechada.
Uma coisa que a literatura não diz, e que nenhum fornecedor deve sugerir: isto não é analgesia e não substitui nenhuma decisão sobre analgesia. Não altera indicação de epidural, não trata dor, e não é ferramenta de decisão clínica.
Porque é que o parto é um caso favorável
Três razões, e explicam por que motivo os resultados aparecem mesmo em ensaios pequenos:
- A dor tem uma componente atencional grande, e o intervalo entre contrações é uma janela natural para trabalhar essa componente: o mecanismo que descrevemos em gestão da dor.
- A ansiedade antecipatória amplifica a dor. Quem chega a um bloco assustada sente mais, e é o mesmo padrão que aparece na ansiedade pré-operatória.
- A pessoa está acordada, colaborante e tem tempo. Ao contrário de quase tudo o resto num hospital.
As cinco perguntas que decidem, e que não são sobre conteúdo
É aqui que os projetos falham, e nenhuma destas perguntas se resolve com um catálogo melhor.
1. Quem interrompe? A mulher tem de poder tirar o equipamento num segundo, sem pedir, sem procurar um botão. Se a resposta não for imediata e óbvia, o resto não interessa. É a regra que já aplicamos em quando o utente recusa.
2. Quem conduz? Uma sessão no parto acontece durante trabalho clínico ativo, e não pode acrescentar uma pessoa à sala. Ou a equipa que já lá está a consegue conduzir com formação de utilização, ver quem pode conduzir, ou o equipamento fica no armário.
3. Como se limpa, entre duas mulheres? Um bloco de partos tem protocolo próprio, e um equipamento que não encaixe nele não entra. As nossas respostas estão em higiene e segurança, e a pergunta certa a fazer-nos é o tempo de reprocessamento, não o material.
4. E a monitorização? Cardiotocografia, acessos, mobilidade da mulher, posição. O equipamento tem de ser compatível com tudo isso, e a resposta honesta é que depende da sala, não do produto.
5. Quando se propõe? Uma proposta feita em plena fase ativa é uma má proposta. O consentimento pertence ao plano de parto, discutido antes, com a informação toda: incluindo a de que pode recusar sem justificar. É o mesmo princípio de consentimento informado.
Enjoo, que aqui é uma questão à parte
O desconforto vestibular é raro e ligeiro com conteúdo bem escolhido, como escrevemos em conforto e enjoo. No trabalho de parto há um agravante: náusea é frequente por razões que nada têm a ver com o equipamento: a própria fase de transição, a analgesia, o jejum.
A consequência prática é de registo, não de conteúdo: se houver náusea, ninguém vai conseguir dizer depois de que foi. Vale a pena registar o que se usou e quando, para que a equipa não atribua ao equipamento um sintoma que ia acontecer de qualquer maneira, nem o contrário.
Onde a RVer está nisto
Com clareza: não temos um produto obstétrico. O produto base é uma biblioteca de conteúdo para conforto, distração e atividade, registada como Dispositivo Médico Classe I, sem alegação de tratamento e sem indicação específica para trabalho de parto.
Um serviço que queira testar isto num bloco de partos consegue fazê-lo com o produto base, e deve fazê-lo como piloto, com as cinco perguntas de cima respondidas por escrito antes de a primeira mulher o experimentar. Se as respostas não existirem, a nossa recomendação é começar por um contexto mais simples e voltar ao bloco depois.
A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem analgesia, avaliação ou acompanhamento clínico.
Perguntas frequentes
A realidade virtual reduz a dor do parto?
Os ensaios apontam de forma consistente para redução da dor referida e da ansiedade durante o trabalho de parto, com boa aceitação e sem sinal de dano. A revisão sistemática na JMIR Serious Games reuniu 12 estudos com 1095 participantes; uma revisão integrativa de 2025 na Pain Management Nursing incluiu 13 estudos, 10 deles aleatorizados. A heterogeneidade entre estudos é alta e as amostras são pequenas: é evidência encorajadora, não fechada.
Isto substitui a epidural ou outra analgesia?
Não. Não é analgesia, não altera a indicação de qualquer método analgésico e não é ferramenta de decisão clínica. É uma medida de conforto e distração, complementar, e a decisão sobre analgesia continua inteiramente com a equipa e com a mulher.
A mulher pode tirar o equipamento a qualquer momento?
Tem de poder, num segundo, sem pedir e sem procurar um botão. Se essa resposta não for imediata e óbvia, o equipamento não deve entrar numa sala de partos.
Quem conduz a sessão durante o trabalho de parto?
A equipa que já está na sala, com formação de utilização: normalmente enfermagem especialista. Uma sessão que exija acrescentar uma pessoa à sala não é viável em trabalho clínico ativo, e é a razão mais comum para o equipamento acabar no armário.
E o enjoo, num contexto em que a náusea já é frequente?
O desconforto vestibular é raro e ligeiro com conteúdo bem escolhido, mas no trabalho de parto a náusea é frequente por razões independentes: a fase de transição, a analgesia, o jejum. A consequência é de registo: anotar o que se usou e quando, para que a equipa não atribua ao equipamento um sintoma que ocorreria de qualquer forma, nem o contrário.
A RVer tem um produto para obstetrícia?
Não. O produto base é uma biblioteca de conteúdo para conforto, distração e atividade, registada como dispositivo médico Classe I, sem alegação de tratamento e sem indicação específica para trabalho de parto. Um serviço pode testá-lo em piloto, com as questões de sala respondidas por escrito antes.
