Em agosto escrevemos sobre sala Snoezelen ou realidade virtual, a pensar em quem ainda não tem nenhuma das duas. A conclusão já apontava para aqui: muitas instituições acabam por usar as duas.
Numa reunião recente, a pergunta chegou ao contrário. A instituição já tem a sala, já tem a equipa habituada a usá-la, e quer saber se a realidade virtual entra lá dentro ou fica à porta. Entra, e há uma forma de o fazer que respeita o que a sala já faz bem.
De onde vem a sala Snoezelen
O conceito nasceu nos Países Baixos no fim dos anos 70, com Jan Hulsegge e Ad Verheul, num centro para pessoas com deficiência intelectual. O nome junta duas palavras neerlandesas: snuffelen, explorar, e doezelen, dormitar. A ideia era um espaço sem objetivo de desempenho, onde a pessoa explora e acalma ao seu ritmo, sempre acompanhada.
Com os anos, a sala passou para lares, centros de dia e unidades de cuidados continuados. O princípio manteve-se: luz, som, textura e cheiro controlados, e alguém ao lado.
O que a sala dá à sessão de realidade virtual
Uma sessão de realidade virtual pede quase as mesmas condições que uma sala Snoezelen já oferece:
- Um sítio calmo. Luz baixa, pouca passagem de pessoas, nada de campainhas a meio. A pessoa não é interrompida.
- Uma rotina. Quem frequenta a sala já sabe que ali se faz uma pausa. O headset entra numa rotina que existe, em vez de criar uma nova.
- Um lugar sentado e confortável. As sessões fazem-se sentado, e as salas costumam ter os melhores cadeirões da casa.
- Uma equipa que acompanha sem pressa. Quem conduz a sala já sabe observar a pessoa e parar quando é preciso. É exatamente o que uma sessão com headset pede.
O que o headset acrescenta à sala
A sala tem luz, som e textura. Não tem lugares. Uma praia, a aldeia onde a pessoa cresceu, o santuário de Fátima: isso é o que a realidade virtual traz para dentro da sala.
E traz mais duas coisas que a sala não tem:
- Muda de ambiente sem obras. O cenário de hoje não tem de ser o de amanhã.
- Pode deixar registo. Se a instituição quiser, fica escrito o que foi feito, com quem e durante quanto tempo.
O headset não fica preso à sala. Quem não consegue lá chegar, porque está acamado ou não sai do quarto, continua a poder ter a sessão onde está.
Como montar, na prática
- Um canto, não a sala inteira. Um cadeirão afastado das colunas de bolhas e dos objetos pendurados, para a pessoa poder mexer a cabeça à vontade.
- O som da sala baixa. O headset tem o seu próprio som ambiente. Dois sons ao mesmo tempo confundem mais do que acalmam.
- Luz baixa, mas não escuro. A pessoa com o headset não vê a sala; quem acompanha precisa de ver a pessoa.
- Um estímulo de cada vez. Nada de headset em cima de uma cadeira vibratória ou de uma cama de água. Se a pessoa reage, a equipa tem de saber a quê.
- A sala serve para chegar e para sair. Uns minutos na sala antes de pôr o headset, e uns minutos depois de o tirar. Voltar de um cenário para uma sala de luz suave é diferente de voltar para um corredor.
- Uma pessoa no headset, as outras na sala. A realidade virtual é individual. Enquanto uma pessoa está no cenário, as outras continuam com o resto da sala, e a equipa acompanha a sessão no telemóvel ou no tablet.
Onde não resulta
- Quem não tolera nada na cabeça. Para essa pessoa, fica a sala, e está bem assim.
- Sessões de grupo. A sala é partilhável, o headset não. Se a sala é sobretudo usada em grupo, o headset encaixa antes ou depois, não durante.
- Uma sala sempre ocupada. Se já há fila para a sala, pôr lá o headset só aumenta a fila. Nesse caso, o headset rende mais onde a pessoa está.
Nenhuma das duas é um tratamento. São ambientes de conforto e estimulação, usados sob supervisão de quem cuida. Não substituem avaliação clínica nem qualquer terapêutica prescrita, e a decisão sobre o plano de cuidados é sempre da equipa.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Sobre como encaixar as sessões na semana, ver plano de atividades num lar. Sobre quem consegue usar o equipamento, ver acessibilidade em realidade virtual.
Perguntas frequentes
Pode usar-se a realidade virtual dentro de uma sala Snoezelen?
Sim. Funciona bem num canto da sala, com a pessoa sentada, o som da sala baixo e um estímulo de cada vez. A sessão é sempre acompanhada por alguém da equipa.
Se já temos a sala, ainda faz sentido ter realidade virtual?
Faz, porque fazem coisas diferentes. A sala dá toque, movimento e partilha; o headset dá lugares e pode deixar registo da sessão. E o headset continua a poder ir ao quarto de quem não chega à sala.
Quem tem de estar presente durante a sessão?
Um profissional da equipa, ao lado da pessoa, do princípio ao fim. É a mesma regra da sala Snoezelen.
