Num CACI ou num lar residencial, o dia tem uma estrutura que outros serviços invejariam: horários, rotinas, equipas que conhecem cada pessoa há anos. E tem um problema que quem lá trabalha conhece bem: a mesma sala, as mesmas atividades, o mesmo caminho até à carrinha. Para muitos adultos com deficiência intelectual, o mundo fora da instituição é pequeno — e, quando se alarga, por uma consulta ou uma viagem, assusta.
Este artigo é sobre atividade significativa para estes adultos, e sobre o lugar que a realidade virtual pode ou não ter nela.
Atividade significativa não é ocupação
A Portaria n.º 70/2021, que criou os Centros de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) em substituição dos antigos CAO, diz uma coisa que vale a pena repetir: as atividades não são um fim em si mesmas, são um meio para a autonomia e a inclusão. A mudança de nome não foi cosmética. Encher a manhã não chega; o que conta é se a atividade tem sentido para aquela pessoa e lhe dá alguma forma de escolha.
Na prática, uma atividade significativa para um adulto com deficiência intelectual costuma ter quatro ingredientes:
- Interesse próprio. Comboios, futebol, animais, uma praia de infância, a terra dos pais. Não o que a equipa acha que deveria interessar.
- Uma escolha real. Entre duas ou três opções concretas, mostradas e não apenas ditas.
- Previsibilidade. Saber o que vai acontecer, quanto tempo dura e como acaba.
- Papel ativo. Fazer, mostrar, contar — não só assistir.
Os critérios para escolher um cenário a partir do interesse de cada pessoa estão em como se escolhe um cenário.
Comunicação e escolha
Muitas pessoas acompanhadas num CACI comunicam pouco por palavras, ou comunicam de forma que só quem as conhece lê bem. Isso não as torna menos capazes de escolher; torna mais exigente a forma de perguntar.
- Mostrar em vez de descrever. Uma imagem do lugar, um pictograma, um objeto. «Praia ou comboio?» com duas imagens funciona melhor do que uma lista falada.
- Usar o sistema de comunicação que a pessoa já usa — pictogramas, sinais, um quadro, um tablet. Não inventar um novo para a atividade.
- Dar tempo à resposta. Uns segundos a mais de silêncio respeitam mais do que repetir a pergunta.
- Ler o corpo. Afastar-se, tapar os olhos, ficar rígido ou mexer muito as mãos podem ser um «não» tão claro como a palavra. Sorrir, inclinar-se para a frente ou apontar, um «sim».
- Aceitar o «não» à primeira. Uma recusa respeitada hoje torna mais provável um «sim» amanhã.
Previsibilidade e sensibilidade sensorial
Muitos adultos com deficiência intelectual, sobretudo quando há também perturbação do espetro do autismo, têm uma sensibilidade particular a som, luz, toque ou mudança. Um headset junta várias destas coisas de uma vez: algo apertado na cabeça, a sala que desaparece, som que vem de perto. Para algumas pessoas é interessante; para outras é intolerável, e não há que insistir.
O que costuma ajudar:
- Anunciar antes, com o mesmo formato de sempre. Se a pessoa usa uma agenda visual, a sessão entra lá, com imagem.
- Deixar ver e tocar o headset antes de o pôr. Pô-lo primeiro na mão, depois perto da cara, depois na cabeça — às vezes em dias diferentes.
- Começar com o som baixo, ou sem som.
- Sessões curtas, de poucos minutos, com fim anunciado («quando o barco chegar, tiramos»).
- Sempre o mesmo profissional nas primeiras vezes, na mesma sala, à mesma hora.
- Um sinal combinado para parar, que a pessoa consiga fazer mesmo sem falar.
As questões de conforto, enjoo e cybersickness estão em conforto e enjoo, e os limites gerais de quem pode usar em acessibilidade.
Preparar idas a sítios novos
Uma consulta num hospital desconhecido, uma viagem de transporte público, uma visita a um sítio onde nunca se foi. Para quem depende de previsibilidade, o desconhecido é o mais difícil, e as equipas preparam estas saídas há muito tempo com fotografias, histórias sociais e conversa.
Um vídeo 360° de um lugar real pode juntar-se a essa preparação: ver como é uma rua, uma estação, um espaço exterior, antes de lá estar. É familiarização e conversa sobre o que se vai encontrar, conduzida pela equipa que conhece a pessoa.
É importante dizer o que isto não é. Não é terapia de exposição, não é dessensibilização, e não é tratamento de fobias ou de ansiedade. O módulo RVer Exposure está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo do produto base. E a biblioteca não tem, nem pretende ter, cada consultório ou cada estação: o que mostra são lugares reais escolhidos para conforto e conversa, que podem ou não parecer-se com o destino.
Consentimento: a pessoa e quem a representa
Num adulto com deficiência intelectual, a pergunta «quem decide?» tem duas respostas que não se anulam.
A própria pessoa participa sempre. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada por Portugal, parte do princípio de que a pessoa decide com apoio, e não de que alguém decide por ela. Em Portugal, o regime do maior acompanhado (Lei n.º 49/2018) substituiu a interdição e a inabilitação precisamente com essa lógica: medidas à medida da pessoa, e não uma incapacidade geral.
O representante ou acompanhante, quando existe, é informado e ouvido nos termos que a sentença e as regras da instituição definem. Explicar-lhe o que é a sessão, quanto dura, o que se vê e como se para evita surpresas e desconfianças.
Na prática:
- explicar à pessoa, no formato que ela entende, o que vai acontecer — e voltar a perguntar a cada sessão;
- registar o assentimento e os sinais de recusa, não só a assinatura do papel;
- um «não» da pessoa conta, mesmo que o representante tenha dito que sim.
Mais em consentimento informado.
Onde o RVer pode entrar, e onde não
O RVer pode ser uma atividade entre outras no plano de um CACI ou de um lar residencial: uma sessão curta, acompanhada por um profissional, num lugar escolhido pelo interesse da pessoa — a praia, o jardim, a aldeia, a igreja. Pode dar ocasião para escolher, para contar, para mostrar a alguém de que lugar se gosta. Pode juntar-se à preparação de uma saída. O conteúdo está todo no equipamento e funciona sem internet, e nada sai do equipamento.
O que não faz: não é terapia, não substitui a intervenção da equipa técnica, não é treino de competências e não é exposição. E não serve a toda a gente. Há pessoas que não toleram nada na cabeça, que se angustiam quando a sala desaparece ou que simplesmente não querem. Para essas, a resposta certa é outra atividade. O que fazer nesses casos está em quando o utente recusa, e o que temos pensado para este contexto em deficiência.
Em resumo
- Atividade significativa é a que tem sentido para aquela pessoa e lhe dá escolha, não a que ocupa tempo.
- A escolha faz-se com o sistema de comunicação que a pessoa já usa, mostrando em vez de descrever.
- Previsibilidade e cuidado sensorial decidem se um headset é tolerado; muitas vezes não é, e está bem.
- Ver um lugar antes de lá ir pode ajudar a preparar uma saída, mas não é terapia de exposição.
- A pessoa participa sempre no consentimento; o representante é informado; o «não» da pessoa conta.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica nem a avaliação da equipa técnica que acompanha cada pessoa. As decisões sobre atividades e consentimento seguem o plano individual e as regras da instituição.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Perguntas frequentes
A realidade virtual é adequada para adultos com deficiência intelectual?
Para algumas pessoas, sim, como atividade curta e acompanhada escolhida a partir dos seus interesses. Para outras, não: há quem não tolere o headset ou se angustie quando a sala desaparece. A decisão faz-se pessoa a pessoa, e a recusa respeita-se.
Pode usar-se para preparar uma consulta ou uma viagem?
Pode juntar-se à preparação que as equipas já fazem, mostrando lugares reais e dando tema para conversa. Não é terapia de exposição nem tratamento de ansiedade; o módulo RVer Exposure está em desenvolvimento e fora do registo do produto base.
Quem dá o consentimento?
A própria pessoa participa sempre, no formato de comunicação que entende, e o seu «não» conta. Quando existe representante ou acompanhante, é informado e ouvido nos termos definidos pela sentença e pela instituição.
Como reduzir o desconforto sensorial?
Anunciando a sessão na agenda visual da pessoa, deixando ver e tocar o headset antes, começando com som baixo, fazendo sessões de poucos minutos com fim anunciado e combinando um sinal para parar.
