Escrevemos há umas semanas sobre o que muda numa sessão quando a pessoa ouve mal, em perda auditiva. Este é o par desse artigo, e talvez o mais óbvio: a realidade virtual é, antes de tudo, uma experiência visual. Quando a visão falha, a pergunta não é só «como adaptar», é também «vale a pena?».
A resposta honesta é: muitas vezes vale, às vezes não. A Organização Mundial da Saúde, no relatório mundial sobre a visão de 2019, estimava que pelo menos 2,2 mil milhões de pessoas viviam com alguma perda de visão — e as cataratas e a degeneração macular relacionada com a idade estão entre as causas mais frequentes nas pessoas mais velhas, exatamente as que encontramos em lares, centros de dia e serviços de internamento.
O que cada condição muda
Não é tudo a mesma coisa, e a adaptação depende do que a pessoa perdeu.
- Cataratas. O cristalino fica opaco. A imagem fica turva, as cores desbotadas, a luz forte encandeia e a pouca luz custa mais. A boa notícia é que a cirurgia é comum; muitos utentes já foram operados a um olho, ou aos dois.
- Degeneração macular relacionada com a idade (DMI). Afeta a mácula, a zona da retina que dá a visão central e de pormenor. Ler, reconhecer caras e ver o que está mesmo à frente torna-se difícil, enquanto a visão periférica costuma manter-se. Na forma seca a perda é lenta; na forma húmida pode ser rápida. Uma mudança súbita — linhas direitas que ficam onduladas, uma mancha nova no centro — é motivo para contactar o oftalmologista, não para esperar.
- Baixa visão em geral. Glaucoma, retinopatia diabética, sequelas de AVC: cada uma tira coisas diferentes. Quem melhor sabe o que a pessoa vê é ela própria, e a equipa que a acompanha todos os dias.
Antes da primeira sessão, vale a pena perguntar simplesmente: de que lado vê melhor, e o que lhe custa mais ver?
Óculos de ver dentro do headset
É a pergunta que mais nos fazem, e a resposta é sim: o Meta Quest 3, que usamos, permite usar óculos de ver dentro do headset. A Meta indica, no guia de ajuste do equipamento, que a profundidade das lentes pode ser ajustada para as afastar da cara ou dos óculos de ver. Não usamos espaçadores; o ajuste faz-se no próprio headset. Explicámos as razões da escolha em porque usamos o Meta Quest 3.
Alguns cuidados práticos:
- Coloquem o headset de frente para trás, primeiro sobre os óculos de ver e só depois a correia, para não empurrar as hastes nem riscar as lentes.
- Afastem as lentes do headset o suficiente para não tocarem nos óculos de ver. Lentes que se tocam riscam-se e deixam de focar bem.
- Ajustem a distância entre lentes (a roda por baixo do headset) até a imagem ficar nítida para aquela pessoa.
- Se a pessoa tem óculos de ver diferentes para perto e para longe, experimentem e anotem os que resultaram. Na sessão seguinte, já não se perde tempo.
- Armações muito largas podem não caber. Nesse caso, digam-no no registo em vez de forçar.
Existem lentes graduadas de encaixe para o headset, vendidas por terceiros, mas são pessoais. Num equipamento partilhado por vários utentes, o mais simples é cada pessoa usar os seus óculos de ver.
Conteúdo com pouco pormenor e bom contraste
Um vídeo 360° tem a vantagem de não precisar de pormenor fino para fazer sentido. Uma praia, um jardim, uma aldeia, o interior de uma igreja reconhecem-se pela forma, pela luz e pelo som, não por um letreiro ao fundo.
- Escolham cenas largas e calmas, com poucos elementos e movimento lento. Ver como se escolhe um cenário.
- Evitem depender de texto ou de pormenores pequenos («consegue ler o nome da rua?» é uma pergunta que só frustra).
- Cuidado com o encandeamento. Para quem tem cataratas, uma cena com muito sol, neve ou reflexos na água pode incomodar. Comecem com luminosidade moderada e ajustem o brilho do headset com a pessoa a dizer.
- Cenas muito escuras também custam: há pouca informação para quem já vê com pouco contraste.
- Na DMI, deixem a pessoa mexer a cabeça. Quem perdeu o centro aprende a olhar de lado. Num vídeo 360°, isso é possível — não insistam em «olhe em frente».
Mais som, mais palavras
Quando a imagem dá menos, o resto tem de dar mais.
- Descrevam. Quem conduz pode dizer o que está na cena: «está numa praia, o mar está à sua esquerda, há barcos ao fundo». Não é infantilizar; é dar o que falta.
- Aproveitem o som ambiente. Ondas, sinos, pássaros, vozes ao longe: muitas vezes é o som que traz a memória.
- Falem do lugar. Uma pergunta sobre o sítio — «já esteve numa praia assim?» — vale mais do que uma pergunta sobre o que se vê.
- Verifiquem a audição também. Visão e audição falham muitas vezes juntas; se a pessoa ouve mal, o artigo sobre perda auditiva tem as adaptações.
Quando não vale a pena
Há situações em que a sessão não traz o que promete, e é melhor dizê-lo.
- Perda grave nos dois olhos, em que a pessoa já não distingue formas nem luz. Aí, o headset tapa a cara e não dá nada em troca.
- Logo depois de uma cirurgia ou de um tratamento ocular. Um headset encosta-se à cara; esperem pela indicação de quem fez a cirurgia ou o tratamento, e sigam as instruções de recuperação.
- Quando ver mal frustra. Se a pessoa fica aflita por não conseguir ver, ou repete «não vejo nada», parem. Uma conversa sobre o mesmo lugar, sem headset, pode resultar melhor.
- Desconforto, tonturas ou náuseas. Parem e anotem; há mais sobre isto em conforto e enjoo. A própria Meta recomenda consultar um médico antes de usar o equipamento quando há alterações prévias da visão binocular.
Onde o RVer pode entrar, e onde não
O RVer pode ser uma atividade calma e acompanhada para muitas pessoas com cataratas, DMI ou baixa visão, desde que a sessão seja escolhida para essa pessoa: cenas largas, luz moderada, óculos de ver bem colocados, e alguém ao lado a descrever e a ouvir. O conteúdo está todo no equipamento e funciona sem internet, por isso a sessão pode fazer-se onde a pessoa estiver, incluindo deitada.
O que não faz: não avalia a visão, não a corrige, e não serve para treinar ou recuperar visão. Também não compensa uma perda total. Para os limites gerais de quem pode e não pode usar, ver acessibilidade.
Em resumo
- Cataratas, DMI e outras formas de baixa visão mudam coisas diferentes; perguntem o que custa mais ver.
- O Meta Quest 3 permite usar óculos de ver: afastem as lentes, coloquem de frente para trás, anotem os que resultaram.
- Cenas largas, calmas e sem texto; luz moderada, sem encandear; na DMI, deixem a pessoa olhar de lado.
- Quando a imagem dá menos, descrevam mais e aproveitem o som.
- Perda grave nos dois olhos, cirurgia recente ou frustração evidente: a sessão não vale a pena.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação oftalmológica. Perante uma mudança súbita da visão, contactem o médico ou o oftalmologista; após cirurgia ou tratamento ocular, sigam as indicações de quem o fez.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Perguntas frequentes
Pode-se usar óculos de ver dentro do headset?
Sim. O Meta Quest 3 permite ajustar a profundidade das lentes para as afastar da cara ou dos óculos de ver, como a Meta indica no guia de ajuste. O RVer não usa espaçadores. Armações muito largas podem não caber.
Uma pessoa com degeneração macular consegue aproveitar uma sessão?
Muitas vezes sim. A DMI tira sobretudo a visão central e de pormenor, e a periférica costuma manter-se. Cenas largas, sem texto, e deixar a pessoa mexer a cabeça e olhar de lado ajudam. Uma mudança súbita da visão deve ir ao oftalmologista.
E com cataratas?
As cataratas deixam a imagem turva, desbotam as cores e tornam a luz forte incómoda. Escolham cenas com luminosidade moderada, ajustem o brilho com a pessoa a dizer, e evitem cenas muito escuras. Logo após uma cirurgia, esperem pela indicação de quem operou.
Quando é que não vale a pena fazer a sessão?
Com perda grave nos dois olhos, em que a pessoa já não distingue formas nem luz; logo depois de cirurgia ou tratamento ocular; quando a pessoa fica aflita por não ver; ou se houver desconforto, tonturas ou náuseas.
