RVer Artigos · Conhecimento

Artigos / Contextos clínicos

A pessoa não estava desinteressada — não estava a ouvir

«Não colaborou», «não gostou», «não percebeu» — três frases que aparecem no registo depois de uma sessão falhada, e que às vezes descrevem apenas um aparelho auditivo sem pilha. Vale a pena excluir isso antes de mudar o conteúdo.

Tema
Contextos clínicos
Leitura
6 min de leitura
Publicado
7 de setembro de 2026
Autoria
RVer
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

A perda auditiva é o fator de risco que junta duas coisas raras: é dos que mais pesa na demência e é dos mais fáceis de corrigir. Na atualização de 2024 da comissão do Lancet, responde por cerca de 7% do risco atribuível — o valor mais alto da lista, a par do colesterol LDL na meia-idade. Foi 9% em 2017 e 8% em 2020, e a própria estimativa é criticada por não considerar a sobreposição entre fatores, o que convém dizer sempre que se cita uma percentagem destas. Escrevemos sobre a lista completa em os 14 fatores de risco.

Mas este artigo não é sobre risco de demência a dez anos. É sobre a terça-feira: a audição decide se a sessão de hoje resulta, e é a explicação mais banal — e mais ignorada — de uma sessão que correu mal.

O que a perda auditiva faz a uma sessão

Quatro efeitos, e nenhum se parece com surdez à primeira vista:

  • A instrução não chega. «Olhe para a direita» dito de lado, com ruído de fundo, não é ouvido — e o que fica registado é que a pessoa não seguiu a instrução.
  • O esforço de escuta cansa. Quem ouve mal gasta atenção a decifrar em vez de a usar no que está a ver. Vinte minutos passam a ser muito.
  • Confunde-se com declínio cognitivo. Responder ao lado, pedir para repetir, desistir da conversa: é o retrato clássico de quem não ouve, e o retrato clássico de quem está a declinar. Sem excluir a audição, a segunda hipótese fica a ganhar sem julgamento — e é o mesmo problema que descrevemos em declínio sem diagnóstico.
  • Isola. Quem ouve mal participa menos em grupo, e é aí que começa a retirada que ninguém regista.

Dois minutos antes da sessão

A verificação não é clínica e faz-se sem material:

  1. O aparelho existe? Muitos residentes têm um, na gaveta.
  2. Tem pilha, e está ligado? É a causa isolada mais comum, e resolve-se em trinta segundos.
  3. Está bem colocado? Um molde mal encaixado apita e a pessoa tira-o — e a partir daí não volta a usá-lo.
  4. De que lado ouve melhor? Toda a gente da equipa devia saber isto de cor para os residentes com quem trabalha.
  5. Houve cera? É frequente, banal, e reversível numa consulta.

Se alguma destas cinco falhar, resolvam isso antes de mudar o cenário. Nenhum conteúdo compensa um aparelho na gaveta.

Sete adaptações que mudam o resultado

Nenhuma exige equipamento diferente do que já existe:

  • Fale de frente e ao nível dos olhos, antes de pôr o equipamento. O que se combina antes é o que vai valer durante.
  • Combine sinais de mão para «parar», «está bem» e «mais alto». Uma pessoa com o equipamento posto não vê a cara de ninguém — e isto vale para toda a gente, não só para quem ouve mal.
  • Baixe o ruído da sala. Televisão desligada, porta fechada. O ruído de fundo prejudica quem ouve mal muito mais do que prejudica os outros.
  • Escolha conteúdo que não dependa de narração. Um cenário que se explica sozinho vale mais do que um bom texto que não é ouvido — é um critério a acrescentar aos de como se escolhe um cenário.
  • Não grite: articule e abrande. Gritar distorce e, com aparelho, chega a doer.
  • Cuidado com o volume do equipamento. Quem ouve mal pede mais volume, e um aparelho auditivo amplifica por cima. Comece baixo e suba com a pessoa a dizer.
  • Encurte. Se o esforço de escuta cansa, quinze minutos bons valem mais do que trinta arrastados — a lógica que está em duração e frequência.

O que registar

Duas linhas, e mudam a próxima sessão: se o aparelho estava colocado e a funcionar, e de que lado se falou. Sem isso, a sessão seguinte recomeça do zero e a equipa volta a atribuir à pessoa aquilo que é do contexto.

É o mesmo princípio dos outros artigos desta série: o que não fica escrito não chega a quem conduz da próxima vez.

A parte que nos toca

O nosso conteúdo tem áudio, e nada disto o dispensa. Quando um serviço nos pergunta se a RVer serve para uma pessoa com perda auditiva grave, a resposta honesta é: serve, se a atividade for escolhida para ser vista e não ouvida, e se a equipa combinar antes a forma de comunicar. Não é uma adaptação do produto — é uma adaptação da sessão, e é a equipa que a faz.

Os limites gerais de quem pode e não pode usar estão em acessibilidade.

A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I certificado pelo Infarmed. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem avaliação auditiva, diagnóstico ou acompanhamento clínico.

Um caso concreto?

Diga-nos qual é a situação

Respondemos com sim, com «é preciso testar», ou com não — as três acontecem, e a última também é útil.

Falar com a equipa →

← Voltar aos artigos