A perda auditiva é o fator de risco que junta duas coisas raras: é dos que mais pesa na demência e é dos mais fáceis de corrigir. Na atualização de 2024 da comissão do Lancet, responde por cerca de 7% do risco atribuível: o valor mais alto da lista, a par do colesterol LDL na meia-idade. Foi 9% em 2017 e 8% em 2020, e a própria estimativa é criticada por não considerar a sobreposição entre fatores, o que convém dizer sempre que se cita uma percentagem destas. Escrevemos sobre a lista completa em «Os 14 fatores de risco».
Mas este artigo não é sobre risco de demência a dez anos. É sobre a terça-feira: a audição decide se a sessão de hoje resulta, e é a explicação mais banal, e mais ignorada, de uma sessão que correu mal.
O que a perda auditiva faz a uma sessão
Quatro efeitos, e nenhum se parece com surdez à primeira vista:
- A instrução não chega. «Olhe para a direita» dito de lado, com ruído de fundo, não é ouvido, e o que fica registado é que a pessoa não seguiu a instrução.
- O esforço de escuta cansa. Quem ouve mal gasta atenção a decifrar em vez de a usar no que está a ver. Vinte minutos passam a ser muito.
- Confunde-se com declínio cognitivo. Responder ao lado, pedir para repetir, desistir da conversa: é o retrato clássico de quem não ouve, e o retrato clássico de quem está a declinar. Sem excluir a audição, a segunda hipótese fica a ganhar sem julgamento, e é o mesmo problema que descrevemos em declínio sem diagnóstico.
- Isola. Quem ouve mal participa menos em grupo, e é aí que começa a retirada que ninguém regista.
Dois minutos antes da sessão
A verificação não é clínica e faz-se sem material:
- O aparelho existe? Muitos residentes têm um, na gaveta.
- Tem pilha, e está ligado? É a causa isolada mais comum, e resolve-se em trinta segundos.
- Está bem colocado? Um molde mal encaixado apita e a pessoa tira-o, e a partir daí não volta a usá-lo.
- De que lado ouve melhor? Toda a gente da equipa devia saber isto de cor para os residentes com quem trabalha.
- Houve cera? É frequente, banal, e reversível numa consulta.
Se alguma destas cinco falhar, resolvam isso antes de mudar o cenário. Nenhum conteúdo compensa um aparelho na gaveta.
Sete adaptações que mudam o resultado
Nenhuma exige equipamento diferente do que já existe:
- Fale de frente e ao nível dos olhos, antes de pôr o equipamento. O que se combina antes é o que vai valer durante.
- Combine sinais de mão para «parar», «está bem» e «mais alto». Uma pessoa com o equipamento posto não vê a cara de ninguém, e isto vale para toda a gente, não só para quem ouve mal.
- Baixe o ruído da sala. Televisão desligada, porta fechada. O ruído de fundo prejudica quem ouve mal muito mais do que prejudica os outros.
- Escolha conteúdo que não dependa de narração. Um cenário que se explica sozinho vale mais do que um bom texto que não é ouvido: é um critério a acrescentar aos de como se escolhe um cenário.
- Não grite: articule e abrande. Gritar distorce e, com aparelho, chega a doer.
- Cuidado com o volume do equipamento. Quem ouve mal pede mais volume, e um aparelho auditivo amplifica por cima. Comece baixo e suba com a pessoa a dizer.
- Encurte. Se o esforço de escuta cansa, quinze minutos bons valem mais do que trinta arrastados: a lógica que está em duração e frequência.
O que registar
Duas linhas, e mudam a próxima sessão: se o aparelho estava colocado e a funcionar, e de que lado se falou. Sem isso, a sessão seguinte recomeça do zero e a equipa volta a atribuir à pessoa aquilo que é do contexto.
É o mesmo princípio dos outros artigos desta série: o que não fica escrito não chega a quem conduz da próxima vez.
A parte que nos toca
O nosso conteúdo tem áudio, e nada disto o dispensa. Quando um serviço nos pergunta se a RVer serve para uma pessoa com perda auditiva grave, a resposta honesta é: serve, se a atividade for escolhida para ser vista e não ouvida, e se a equipa combinar antes a forma de comunicar. Não é uma adaptação do produto: é uma adaptação da sessão, e é a equipa que a faz.
Os limites gerais de quem pode e não pode usar estão em acessibilidade.
A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem avaliação auditiva, diagnóstico ou acompanhamento clínico.
Perguntas frequentes
Qual é o peso da perda auditiva no risco de demência?
Na atualização de 2024 da comissão do Lancet, a perda auditiva responde por cerca de 7% do risco atribuível: o valor mais alto da lista, a par do colesterol LDL na meia-idade. Era 9% em 2017 e 8% em 2020. A estimativa é criticada por não considerar a sobreposição entre fatores, o que convém referir sempre que se cita.
O que verificar antes de uma sessão com alguém que ouve mal?
Cinco coisas, em dois minutos e sem material: se o aparelho auditivo existe, se tem pilha e está ligado, se está bem colocado, de que lado a pessoa ouve melhor, e se há cera. A pilha é a causa isolada mais comum e resolve-se em trinta segundos.
A perda auditiva pode ser confundida com declínio cognitivo?
Sim, e é frequente. Responder ao lado, pedir para repetir e desistir da conversa são o retrato clássico de quem não ouve e também de quem está a declinar. Sem excluir a audição, a hipótese cognitiva fica a ganhar sem julgamento.
Como se adapta uma sessão a quem tem perda auditiva?
Falar de frente antes de colocar o equipamento, combinar sinais de mão para parar e para ajustar, baixar o ruído da sala, escolher conteúdo que não dependa de narração, articular em vez de gritar, começar com volume baixo e subir com a pessoa a dizer, e encurtar a sessão: porque o esforço de escuta cansa.
A RVer serve para alguém com perda auditiva grave?
Serve, se a atividade for escolhida para ser vista e não ouvida, e se a equipa combinar antes a forma de comunicar. Não é uma adaptação do produto, é uma adaptação da sessão, e quem a faz é a equipa da instituição.
