Este artigo é para quem responde: a família em casa e as equipas de lares, centros de dia, apoio domiciliário e hospitais. Primeiro o porquê, depois o que costuma ajudar, e depois quando a repetição é sinal para falar com o médico.
Porque é que a pergunta volta
A resposta não chega a ficar guardada. Na demência, e sobretudo na doença de Alzheimer, a memória de acontecimentos recentes é das primeiras a falhar. A pessoa ouviu a resposta, percebeu-a, e minutos depois ela já não está lá. Para ela, a pergunta é nova. Não sabe que já a fez, e por isso não está a testar a paciência de ninguém.
O tempo deixa de ter pontos de apoio. Sem a memória do que aconteceu há pouco, é difícil saber que dia é, se o almoço já foi ou quanto falta para a visita. «Que dia é hoje?» e «já almocei?» são muitas vezes uma tentativa de se orientar.
A pergunta leva uma emoção. É o ponto mais importante e o mais fácil de perder. «Quando vem a minha filha?» raramente é só um pedido de horário: pode querer dizer «estou sozinha», «tenho medo», «não sei bem onde estou». A Alzheimer's Society nota que, muitas vezes, quem repete a mesma pergunta precisa de uma resposta emocional e não factual, porque se sente confuso ou ansioso. A Alzheimer's Association descreve o mesmo: a repetição pode ser uma forma de exprimir uma preocupação, pedir ajuda ou lidar com frustração, ansiedade ou insegurança.
O que está à volta também conta. Uma sala barulhenta, um dia sem nada para fazer, dor, fome ou cansaço fazem a pergunta voltar com mais frequência. Vale a pena reparar a que horas e em que situações acontece mais: muitas vezes há um padrão, como na agitação ao fim da tarde.
Perguntas repetidas, perseveração e ecolalia
Nem toda a repetição é igual, e a diferença ajuda a perceber o que se está a ver:
- Perguntas repetidas. A pessoa faz uma pergunta com sentido, recebe a resposta e esquece-a. É a forma mais comum e é sobretudo um problema de memória recente.
- Perseveração. Ficar preso a uma palavra, um gesto ou uma ideia e repeti-lo mesmo quando a conversa já mudou. É o termo que os profissionais usam muitas vezes para a repetição de ações e palavras em geral.
- Ecolalia. Repetir palavras ou frases que acabou de ouvir, de outra pessoa ou da televisão. Aparece mais em fases avançadas e nas formas de demência que afetam a linguagem.
Não é preciso dar nome ao que se vê para responder bem, mas a distinção é útil na conversa com a equipa clínica. Sobre o que muda de um diagnóstico para outro, escrevemos sobre os tipos de demência.
O que costuma ajudar
Responder com calma, como se fosse a primeira vez. Para a pessoa, é. Uma resposta curta, simples, no mesmo tom. O cansaço na voz passa mesmo quando as palavras não passam.
Responder à emoção, e não só à pergunta. «A sua filha vem ao fim da tarde. Tem saudades dela, não tem?» Reconhecer o sentimento costuma acalmar mais do que repetir a hora. Às vezes ajuda falar da filha, mostrar uma fotografia, perguntar como era ela em pequena.
Evitar o «já te disse». Lembrar à pessoa que já perguntou não a faz lembrar-se da resposta. Mostra-lhe que falhou, e isso aumenta a ansiedade que estava por trás da pergunta.
Pôr a resposta à vista. Enquanto a pessoa consegue ler e perceber, uma pista visual faz parte do trabalho que a memória já não faz: um calendário grande com o dia assinalado, um relógio bem visível, um quadro branco com o plano do dia, um papel escrito à mão («A Ana vem às 18h. Hoje é terça.»). A Alzheimer's Association inclui notas, relógios, calendários e fotografias entre as ajudas de memória. Num lar, o quadro da sala com o dia e a atividade seguinte serve a todos.
Rotina. A mesma sequência, à mesma hora, todos os dias. Quando o dia é previsível, há menos coisas por perguntar.
Passar a uma atividade calma. Depois de responder, propor outra coisa: um chá, dobrar toalhas, ver fotografias, uma música conhecida, uma volta curta. Não é calar a pergunta, é dar à pessoa algo que ocupe o lugar da preocupação. A ferramenta História de vida ajuda a reunir os temas, lugares e pessoas que costumam resultar com cada utente.
Aceitar o que não faz mal. Se a repetição não causa sofrimento a ninguém, pode simplesmente ficar.
Cuidar de quem responde
Responder à mesma pergunta trinta vezes por dia cansa, e ninguém o faz sempre bem. Irritar-se de vez em quando não faz de ninguém um mau cuidador. O que ajuda são pausas reais: alternar quem responde, sair da sala uns minutos, pedir apoio a tempo.
Em casa, a Linha de Apoio na Demência da Alzheimer Portugal dá informação e apoio a pessoas com demência e a cuidadores formais e informais, nos dias úteis. Nas equipas, falar na passagem de turno da pergunta que se repete ajuda a combinar uma resposta igual para todos: se cada pessoa responde de maneira diferente, a pergunta volta com mais força.
Quando falar com o médico
A repetição que aumenta devagar, ao longo de meses, faz em geral parte da evolução da doença. Outra coisa é uma mudança rápida, em horas ou dias: mais confusão do que o habitual, sonolência ou agitação novas, desatenção, a pessoa a não reconhecer quem conhecia na semana anterior.
Isso pode ser delirium, um estado de confusão aguda com uma causa física: uma infeção (a urinária é frequente), dor, desidratação, obstipação ou efeitos de medicação. O NHS lembra que as infeções urinárias são uma causa comum de confusão em pessoas com demência e que confusão súbita precisa de avaliação urgente. Em Portugal, na dúvida, contacte o SNS 24 (808 24 24 24); numa emergência, o 112.
E se ainda não há diagnóstico e as perguntas repetidas são novidade, isso merece consulta com o médico de família. Repetir perguntas é um dos sinais que levam a avaliar a memória, e há outras causas possíveis além da demência, algumas tratáveis.
Onde o RVer pode entrar, e onde não
Há uma parte disto em que trabalhamos, e convém ser exato sobre o que é.
O RVer é uma biblioteca de vídeos 360° usada por equipas de saúde e de cuidado. Um cenário (uma praia, um jardim, a aldeia, uma igreja conhecida) pode ser um momento calmo e acompanhado e, sobretudo, um ponto de partida para conversa: quem volta a ver a praia onde passava os verões costuma ter coisas para contar. É reminiscência a partir de lugares familiares, ao lado da música, das fotografias e da conversa.
Três coisas, com clareza:
- Não é tratamento. Não afirmamos que reduza a repetição de perguntas nem qualquer sintoma da demência. É mais uma opção de atividade calma.
- A sessão é sempre acompanhada, curta, e para quando a pessoa quiser. Nem toda a gente aceita os óculos, e a recusa respeita-se.
- Faz sentido onde há uma equipa a conduzir a sessão: lar, centro de dia, apoio domiciliário, hospital. Para a família em casa, o que está nas secções acima vale mais do que qualquer equipamento.
Em resumo
- A pergunta volta porque a resposta não fica guardada, e não por teimosia.
- Muitas vezes leva uma emoção: responder também a ela.
- Responder com calma, como se fosse a primeira vez, e evitar o «já te disse».
- Pôr a resposta à vista: calendário, relógio, quadro, um papel escrito.
- Rotina, e uma atividade calma depois de responder.
- Uma mudança súbita pede avaliação médica, não mais paciência.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica. Uma alteração rápida da confusão ou do comportamento merece observação médica: pode ser infeção, dor ou efeito de medicação. As decisões sobre terapêutica são da equipa clínica.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no Infarmed (CDM 94571546) e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Sobre o uso em demência, ver reminiscência, calma e momentos de presença. Para equipas, ver a solução para lar residencial.
Perguntas frequentes
Porque é que a pessoa com demência repete sempre a mesma pergunta?
Sobretudo porque a memória recente falha: a pessoa ouve a resposta e, minutos depois, já não a tem, por isso a pergunta parece-lhe nova. Muitas vezes a pergunta também leva uma emoção, como insegurança ou ansiedade, ou é uma tentativa de se orientar no tempo.
O que se deve responder quando a pergunta se repete?
Responder com calma, como se fosse a primeira vez, com frases curtas, e responder também à emoção por trás da pergunta. Evitar dizer «já te disse», pôr a resposta à vista (calendário, relógio, quadro, um papel escrito) e, depois de responder, passar a uma atividade calma.
Qual é a diferença entre perguntas repetidas, perseveração e ecolalia?
Nas perguntas repetidas a pessoa faz uma pergunta com sentido e esquece a resposta. A perseveração é ficar preso a uma palavra, gesto ou ideia mesmo quando a conversa já mudou. A ecolalia é repetir palavras ou frases que acabou de ouvir, e aparece mais em fases avançadas e nas formas de demência que afetam a linguagem.
Quando é que a repetição é sinal para ir ao médico?
Quando há uma mudança rápida, em horas ou dias: mais confusão do que o habitual, sonolência ou agitação novas, desatenção. Pode ser delirium, causado por infeção, dor, desidratação ou medicação. Na dúvida, contacte o SNS 24 (808 24 24 24); numa emergência, o 112. Se ainda não há diagnóstico, perguntas repetidas novas merecem consulta com o médico de família.
