Uma queda em casa ou no lar, uma ida às urgências, uma cirurgia no dia seguinte ou no outro. Para a família, a fratura da anca parece resolvida quando a operação corre bem. Para a equipa que acompanha a pessoa depois, é aí que o trabalho começa.
Este artigo é sobre esses dias: os que se passam no hospital e os primeiros depois do regresso, ao lar ou a casa.
Porque é que a fratura da anca marca tanto
A fratura da anca é uma das consequências mais graves de uma queda numa pessoa mais velha, e não só pela dor ou pela cirurgia. Uma revisão publicada em 2016 na BMC Geriatrics, que reuniu 38 estudos de coorte sobre a incapacidade a longo prazo depois da fratura, encontrou que apenas 40 a 60% das pessoas recuperavam o nível de mobilidade que tinham antes. Entre as que eram autónomas nos cuidados pessoais antes da fratura, 20 a 60% precisavam de ajuda em várias tarefas um e dois anos depois. A maior parte da recuperação acontecia nos primeiros seis meses, e quem vivia em lar recuperava menos do que quem vivia na comunidade.
A mortalidade no primeiro ano também é elevada, por razões que vão além da fratura: a idade, a fragilidade e as doenças que a pessoa já tinha. É por isso que as orientações internacionais tratam a fratura da anca como um problema de medicina geriátrica, e não apenas ortopédico — o modelo de cuidados ortogeriátricos, em que ortopedia e geriatria acompanham o doente em conjunto, é o que o NICE, no Reino Unido, recomenda.
Os primeiros dias: porque é que o levante conta
A orientação do NICE para a fratura da anca (CG124) é clara num ponto: avaliação pela fisioterapia e levante no dia a seguir à cirurgia, salvo contraindicação médica ou cirúrgica, e mobilização pelo menos uma vez por dia a partir daí. O registo nacional britânico de fraturas da anca usa precisamente «fora da cama até ao dia seguinte à operação» como um dos seus indicadores de qualidade.
A razão é a mesma que descrevemos em imobilidade no internamento: numa pessoa mais velha, cada dia na cama custa força, equilíbrio e confiança que depois demoram muito mais a recuperar. Os obstáculos ao levante precoce são conhecidos — tensão arterial baixa, dor mal controlada, náuseas e delirium estão entre os mais citados — e quase todos se tratam ou se previnem.
Mesmo com levante precoce, há horas e dias em que a pessoa está parada: entre sessões de fisioterapia, à espera de exames, à espera de vaga na rede de cuidados continuados ou de transporte. São esses os dias que mais custam a passar.
Delirium: o que muitas vezes se confunde com «é da idade»
O delirium — um estado de confusão aguda, que surge em horas ou dias e flutua ao longo do dia — é uma complicação frequente depois da fratura da anca e da cirurgia. Pode apresentar-se como agitação, mas também como sonolência e apatia, o que faz com que passe despercebido. Atrasa o levante, prolonga o internamento e está associado a piores resultados.
O NICE recomenda avaliar o estado cognitivo à entrada e estar atento ao delirium ao longo do internamento. As medidas de prevenção são pouco tecnológicas e muito eficazes quando se cumprem: óculos de ver e aparelhos auditivos postos, boa hidratação, controlo da dor, sono à noite, orientação (relógio, calendário, luz natural), mobilização precoce e caras conhecidas. Escrevemos sobre o tema noutro contexto em delirium nos cuidados intensivos.
Para a família, a mensagem mais útil é esta: uma confusão nova não é «normal da idade» e deve ser comunicada à equipa logo que se note.
O medo de voltar a cair
Depois de uma queda que acabou em cirurgia, o medo de voltar a cair é quase esperado. O problema é quando esse medo passa a decidir: a pessoa recusa levantar-se, agarra-se a quem a ajuda, pede para ficar na cadeira. É um ciclo que conhecemos bem — menos movimento, menos força, mais motivos para ter medo — e que tratámos em medo de cair.
Algumas coisas ajudam a equipa e a família:
- Perguntar diretamente se a pessoa tem medo. Muitas não o dizem sem que lhes perguntem, e a recusa é lida como falta de vontade.
- Explicar o que vai acontecer antes de cada levante: quem ajuda, até onde se vai, o que acontece se se cansar.
- Metas pequenas e visíveis. Sentar na beira da cama, depois a cadeira, depois a porta do quarto. Cada uma conta.
- Não reforçar o medo sem querer. Frases como «cuidado, não se levante sozinha» são necessárias, mas convém equilibrá-las com o que a pessoa já consegue fazer.
Motivação para a fisioterapia
A recuperação depois da fratura da anca depende muito do que a pessoa faz entre as sessões, e da vontade com que as faz. Cansaço, dor, tristeza, confusão e saudades de casa são razões comuns para dizer «hoje não». A adesão é um dos fatores que mais pesam no resultado, como discutimos em adesão à fisioterapia.
O que costuma ajudar não é complicado: um objetivo que faça sentido para a pessoa («voltar a ir ao jardim», «ir sozinha à casa de banho»), elogiar o progresso concreto, sessões à hora em que a pessoa está melhor, dor controlada antes do exercício e uma família que saiba o que se está a tentar e o que pode reforçar.
No regresso — ao lar ou a casa — a continuidade é o ponto frágil. Vale a pena que o lar saiba o que a pessoa já fazia no hospital, que restrições existem e qual é o plano de fisioterapia, para não recomeçar do zero.
Onde o RVer pode entrar, e onde não
É preciso ser exato aqui. O RVer não é reabilitação e não substitui fisioterapia, nem acelera a recuperação da fratura. O módulo de movimento guiado, o RVer Motion, está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo do produto base.
O que o produto base pode fazer é mais modesto: nos dias parados, uma atividade acompanhada, sentada ou deitada — há um modo deitado para quem ainda não sai da cama — num lugar conhecido da pessoa, durante alguns minutos. Para algumas pessoas é um momento calmo, uma pausa no tédio do quarto e um ponto de partida para conversa sobre o que querem voltar a fazer. A sessão é sempre conduzida por um profissional, para quando a pessoa quiser, e só acontece quando a equipa clínica entende que é adequado — por exemplo, não numa pessoa com delirium ativo e muito agitada.
Em resumo
- A fratura da anca muda a vida de muitas pessoas mais velhas: numa revisão de 2016, só 40 a 60% recuperavam a mobilidade que tinham antes.
- O NICE recomenda avaliação pela fisioterapia e levante no dia a seguir à cirurgia, salvo contraindicação.
- O delirium é uma complicação frequente e muitas vezes silenciosa; uma confusão nova deve ser comunicada logo.
- O medo de voltar a cair pode travar a recuperação: perguntar, explicar e usar metas pequenas.
- No regresso ao lar ou a casa, a continuidade do plano de fisioterapia é o ponto mais frágil.
- O RVer não é reabilitação; pode ser uma atividade calma e acompanhada nos dias parados.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica nem o plano definido pela equipa de ortopedia, geriatria e fisioterapia. Em caso de dúvida depois da alta, contacte o médico assistente ou o SNS 24 (808 24 24 24); numa emergência, ligue 112.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas recuperam a mobilidade depois de uma fratura da anca?
Uma revisão publicada em 2016 na BMC Geriatrics, com 38 estudos de coorte, encontrou que 40 a 60% das pessoas recuperavam o nível de mobilidade anterior à fratura. A maior parte da recuperação acontecia nos primeiros seis meses, e quem vivia em lar recuperava menos.
Quando se deve levantar a pessoa depois da cirurgia?
A orientação do NICE (CG124) recomenda avaliação pela fisioterapia e levante no dia a seguir à cirurgia, salvo contraindicação médica ou cirúrgica, e mobilização pelo menos uma vez por dia a partir daí. A decisão concreta é da equipa que acompanha a pessoa.
O que é o delirium e porque importa depois da fratura da anca?
É um estado de confusão aguda que surge em horas ou dias e flutua ao longo do dia. É frequente depois da fratura da anca e da cirurgia, pode manifestar-se por agitação ou por sonolência, atrasa o levante e prolonga o internamento. Uma confusão nova deve ser comunicada de imediato à equipa.
O RVer ajuda na reabilitação da fratura da anca?
Não. O produto base do RVer não é reabilitação e não substitui fisioterapia. Pode ser usado como atividade acompanhada, sentada ou deitada, nos períodos em que a pessoa está parada. O módulo de movimento guiado, RVer Motion, está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo do produto base.
