Delírium na UCI: pode a Realidade Virtual ajudar a prevenir?
O delírium afeta uma parte significativa dos doentes internados em cuidados intensivos e associa-se a piores resultados. As melhores estratégias de prevenção são não farmacológicas — e é aí que a Realidade Virtual desperta interesse.
O que é o delírium e porque importa na UCI
O delírium é um estado agudo de confusão, com alteração da atenção e da consciência que oscila ao longo do dia. Na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) é frequente e está associado a internamentos mais longos, maior mortalidade e sequelas cognitivas a longo prazo.
Várias condições da própria UCI contribuem para ele: privação de sono, ruído e luz constantes, imobilização, ausência de referências temporais e isolamento da família. Muitos destes fatores são ambientais — e, por isso, potencialmente modificáveis sem medicação.
Porque é que a prevenção não farmacológica está no centro
As abordagens farmacológicas ao delírium têm eficácia limitada e riscos próprios. Por isso, os pacotes de prevenção mais recomendados são não farmacológicos: reorientar o doente no tempo e no espaço, promover o sono, reduzir estímulos agressivos, mobilizar cedo e aproximar a família.
É neste território que a Realidade Virtual terapêutica encaixa como hipótese de investigação. A ideia não é tratar o delírium instalado, mas atuar sobre os fatores ambientais que o favorecem.
Onde a Realidade Virtual pode contribuir
- Orientação e normalidade: cenários calmos e reconhecíveis — um jardim, um dia de sol, um lugar familiar — devolvem referências a um ambiente desorientador.
- Redução da privação sensorial: substituir, por períodos curtos, o tecto e os alarmes por um estímulo agradável e controlado.
- Relaxamento e sono: experiências desenhadas para acalmar podem apoiar a preparação para o descanso.
- Presença da família: a videochamada dentro da experiência aproxima quem está longe, um dos fatores protetores conhecidos.
A evidência nesta área ainda está a construir-se: há estudos promissores e muito interesse clínico, mas faltam ensaios grandes. A Realidade Virtual deve ser vista como um complemento em investigação, integrado no pacote de prevenção — nunca como substituto do protocolo da unidade.
Cautela e critério clínico
O doente crítico exige critério redobrado. A utilização deve ser sempre supervisionada, com sessões curtas, higiene rigorosa entre doentes e atenção a sinais de desconforto. A decisão de usar, e em quem, cabe à equipa responsável.
O papel do RVer
O RVer é um Dispositivo Médico Classe I (Infarmed, MDR 2017/745) e uma alternativa não farmacológica complementar. Em contextos como a UCI, o seu valor está em oferecer à equipa mais uma ferramenta segura e controlável para agir sobre o ambiente — um dos poucos aliados na prevenção do delírium que não passa por mais um fármaco.
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