Há uma conta que quase nenhum hospital faz, e é das que mais pesa.
Um doente é internado por uma pneumonia, uma fratura, uma descompensação. O problema que o trouxe é tratado. E, entretanto, aconteceu outra coisa: passou dias na cama, e a perda de função que isso provoca pode ser maior e mais duradoura do que o episódio agudo.
Os números, com as ressalvas devidas
A literatura de repouso no leito é consistente na direção e muito variável na magnitude, portanto convém dar intervalos e não certezas:
- Perda de força entre cerca de 1% e 3% por dia de repouso, com valores mais altos referidos em pessoas mais velhas.
- Perda de massa muscular que se acumula depressa nos primeiros dias, e que em idosos imobilizados vários trabalhos situam numa ordem de grandeza de vários pontos percentuais ao fim de uma semana.
- A recuperação não é simétrica. É frequentemente citado que cada dia de repouso absoluto pode exigir até duas semanas de recondicionamento para voltar ao ponto de partida.
Esse último ponto é o que muda a conversa. Perde-se em dias e recupera-se em semanas, e o que se perde primeiro são precisamente os músculos antigravíticos — os de levantar da cadeira, de subir um degrau, de ficar de pé. Que são os que decidem se alguém volta para casa ou vai para uma instituição.
Onde isto custa dinheiro ao sistema
A fatura não aparece na linha «imobilidade». Aparece espalhada:
- Mais dias de cama, porque a alta depende de função e não só do problema agudo;
- Destino de alta pior — para cuidados continuados ou para uma instituição, em vez de casa. É a diferença mais cara de todas, e é para sempre;
- Quedas, no internamento e nas semanas seguintes, com o que se lhes segue;
- Readmissões, com um doente que saiu mais frágil do que a doença justificava;
- Carga de cuidados que passa para a família, e que ninguém contabiliza.
E nenhuma destas linhas pertence ao orçamento do serviço onde o doente esteve parado — o que é exatamente o problema que descrevemos em quem paga não é quem poupa.
Porque é que é tão difícil resolver
Não é por ignorância. Toda a gente num serviço sabe que é melhor levantar o doente. O que falta é tempo de equipa, que é o recurso mais escasso que um hospital tem, e que a mobilização consome muito: são duas pessoas, dez minutos, várias vezes ao dia, para uma coisa que não é urgente hoje e cujo benefício aparece daqui a duas semanas noutro sítio.
A segunda dificuldade é a adesão. Muitos doentes não querem. Está cansado, tem dor, não vê o objetivo, e o exercício orientado é aborrecido de uma forma que não ajuda ninguém a repeti-lo.
Onde a realidade virtual entra — com todas as ressalvas
Vamos ser exatos, porque esta é uma zona onde é fácil vender de mais.
O que a realidade virtual não faz: não mobiliza ninguém. Não levanta um doente da cama, não substitui um fisioterapeuta, não substitui um protocolo de mobilização precoce, e não há evidência de que reduza o tempo de internamento. As intervenções com melhor sustentação neste problema são protocolos de mobilização e dotação de fisioterapia. Se tiver de escolher entre um fisioterapeuta e um visor, escolha o fisioterapeuta — dizemo-lo enquanto fabricante de visores.
O que pode fazer: tornar o movimento orientado mais aceitável para quem o recusa. A hipótese, e é uma hipótese, é que um exercício com um objetivo visível seja repetido mais vezes do que um exercício sem ele — e a adesão é metade do problema. Já escrevemos sobre adesão à fisioterapia em idosos.
Uma ressalva regulatória que não se pode saltar: o apoio ao movimento orientado é o RVer Motion, um módulo em desenvolvimento e não abrangido pelo registo de dispositivo médico Classe I, que cobre o produto base. Quem lhe apresentar o módulo como parte do dispositivo registado está a induzi-lo em erro.
E para quem não se levanta de todo, o que existe é outra coisa e não se deve confundir com reabilitação: conforto e presença, com o modo deitado a alinhar o horizonte para quem está reclinado.
O que medir, se quiser mesmo saber
Não meça tempo de internamento — tem demasiadas causas e nunca vai conseguir atribuir a diferença. Meça o que está mais perto:
- sessões de mobilização propostas e realizadas, com e sem o sistema;
- recusas, que é onde o efeito, a existir, aparece primeiro;
- função na alta com um instrumento simples e consistente.
Nenhuma destas prova efeito clínico. Todas lhe dizem se a coisa está a ser usada e se a adesão mudou, que é o que um piloto consegue responder — o resto está em o ROI que não se consegue provar.
Em resumo
- Perde-se em dias, recupera-se em semanas, e primeiro vão os músculos de levantar.
- A fatura aparece no destino de alta, não na linha da imobilidade.
- A realidade virtual não mobiliza ninguém e não substitui fisioterapia.
- Onde pode ajudar é na adesão — e o módulo que a suporta está em desenvolvimento e fora do registo.