A 10 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. A Federação Mundial para a Saúde Mental escolheu para 2026 o tema Lived Experiences Heard: Real Voices, Real Change: experiências vividas, ouvidas; vozes reais, mudança real. Pede também que as iniciativas do dia apoiem o trabalho da Organização Mundial da Saúde sobre desinstitucionalização.
É um tema que se lê depressa como slogan. Vale a pena lê-lo devagar, porque tem uma consequência prática para qualquer serviço: ouvir não é perguntar uma vez. É perguntar, escrever o que a pessoa disse, e deixar que isso mude o que se faz a seguir.
Ouvir começa antes da sessão
Numa atividade não farmacológica, a primeira pergunta é a mais simples e a que mais vezes se salta: o que é que esta pessoa quer? Não o que costuma resultar com os outros residentes, nem o que a equipa acha calmante.
Num sistema de realidade virtual isto tem uma forma concreta: quem escolhe o cenário. Se for sempre a equipa, a sessão é uma atividade feita à pessoa. Se for a pessoa, ou alguém que a conhece bem, é uma atividade feita com ela. Escrevemos sobre como se escolhe em atividade significativa: como se escolhe um cenário.
Ouvir durante: parar quando a pessoa quer
A sessão acaba quando a pessoa quer que acabe, e não quando o cenário termina. Parece óbvio. Na prática exige que quem acompanha esteja a olhar para a pessoa e não para o ecrã, e que parar a meio não seja visto como uma falha.
Ouvir depois: escrever as palavras dela, não as nossas
É aqui que o tema do dia se torna verificável. Depois de uma sessão, o que fica escrito?
- Uma nota útil regista o que a pessoa disse e fez: «Pediu o mar. Falou da Nazaré e do pai. Quis repetir amanhã.»
- Uma nota inútil diz «realizada sessão».
- Uma nota que não se deve escrever tira conclusões que ninguém mediu: «a sessão reduziu a ansiedade».
O equipamento não avalia nem mede estados emocionais. O que regista é operacional: o que foi reproduzido, quando, durante quanto tempo, se foi interrompido. As palavras da pessoa só ficam se alguém as escrever. Explicámos como em a sessão e o processo clínico do doente.
Ouvir tem de mudar alguma coisa
A segunda metade do tema, «mudança real», é a que se esquece. Se a pessoa disse que o mar a aborrece e na semana seguinte volta a ter praia, foi ouvida e ninguém fez nada com isso.
Uma regra simples para a equipa: antes de cada sessão, ler a nota da anterior.
O que isto não é
Uma sessão de conforto em realidade virtual não é psicoterapia, e não deve ser apresentada como tal. A diferença, e porque importa, está em realidade virtual e saúde mental: duas coisas diferentes. O lugar do não farmacológico no sistema português ficou escrito em saúde mental em Portugal.
Em resumo
- O tema de 2026 é ouvir quem vive a experiência, e fazer alguma coisa com isso.
- Ouvir começa na escolha: quem escolhe o cenário?
- A sessão acaba quando a pessoa quer.
- Escreva as palavras da pessoa, não conclusões que ninguém mediu.
- Leia a nota anterior antes da sessão seguinte.
A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I registado no Infarmed. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem avaliação, tratamento ou acompanhamento clínico.