Quando a informática de um hospital pergunta o que é preciso integrar, a resposta «nada» resolve a conversa em dois minutos. É uma das oito perguntas e é a que costuma desbloquear tudo: sem integração não há projeto de TI, não há calendário de desenvolvimento, não há dependência de terceiros.
Mas há um preço, e é justo dizê-lo: o registo da sessão fica onde o sistema está, e não no processo clínico do doente.
Porque é que isso importa
O processo clínico é onde o cuidado é contado. Se uma coisa não está lá, para efeitos práticos não aconteceu:
- o médico que vê o doente na semana seguinte não sabe que houve sessões;
- a passagem de turno não a inclui;
- uma auditoria não a encontra;
- e se alguém quiser mais tarde estudar o que se fez, os dados estão noutro sítio.
Do outro lado, há uma vantagem que também é real e que já explicámos a propósito do Espaço Europeu de Dados de Saúde: não recolhendo dados clínicos nem sendo um sistema de registo de saúde eletrónico, a superfície regulatória é pequena.
As três vias
1. Nota manual no processo. Quem conduziu a sessão escreve uma linha no sistema do hospital, como escreve qualquer outra intervenção não farmacológica.
- Custo: trinta segundos por sessão, e depende de alguém se lembrar.
- Ganho: está no processo, com autoria e data, no sistema que a instituição já audita.
- É a via que recomendamos para começar, e na maioria dos serviços é a única que chega a existir.
2. Exportação periódica. O registo do sistema é exportado e anexado ou resumido, tipicamente por período ou por doente.
- Custo: alguém tem de o fazer, e o que fica no processo é um resumo e não o detalhe.
- Ganho: não depende da memória de cada turno.
- Útil quando há muitas sessões e o registo manual se degrada.
3. Integração à medida. Fazer o sistema escrever no sistema hospitalar.
- Custo: é um projeto de TI, com tudo o que isso implica — âmbito, calendário, segurança, manutenção, e uma dependência que passa a existir para sempre.
- Ganho: automático e completo.
- Não é o que este sistema faz hoje, e desconfie de quem lho prometa como coisa simples. Integrar com sistemas hospitalares raramente é.
O que a nota manual deve conter
Se seguir a via 1 — e provavelmente vai —, vale a pena combinar o conteúdo antes, porque a diferença entre uma nota útil e uma nota inútil é pequena e decide tudo.
Uma nota útil: o que foi feito, quanto tempo, e o que se observou nas palavras do que se viu. «Sessão de 12 minutos, cenário de praia; manteve-se calmo, falou do Algarve, pediu para repetir amanhã.»
Uma nota inútil: «realizada sessão de RV.» Não diz nada a quem lê a seguir.
E uma que não se deve escrever: conclusões que o sistema não sustenta. «Sessão reduziu a ansiedade» é uma inferência clínica; se quem escreve é clínico e a assume, é dele. Não é do equipamento — que não avalia nem mede estados emocionais.
O que existe do nosso lado
O registo de cada sessão: o que foi reproduzido, quando, por quanto tempo, se foi interrompido e em que ponto. É informação operacional sobre a utilização do equipamento, guardada na instituição, e é o que alimenta as vias 1 e 2.
O que não existe: escrita automática no processo, e qualquer campo que pareça um resultado clínico.
Em resumo
- Não integrar é uma vantagem na instalação e um custo no fim.
- Se não está no processo, para efeitos práticos não aconteceu.
- Três vias: nota manual, exportação periódica, integração à medida — por ordem crescente de custo e de fragilidade.
- Comece pela nota manual, e combine o que ela deve conter antes da primeira sessão.
- Nunca escreva no processo uma conclusão que o equipamento não sustenta.