Dois factos, e a tensão entre eles.
Primeiro: Portugal está sistematicamente entre os países europeus com maior consumo de benzodiazepinas e de antidepressivos, e é um padrão antigo, não uma oscilação recente.
Segundo: o acesso a psicoterapia no Serviço Nacional de Saúde é limitado. O número de psicólogos por habitante ficou historicamente abaixo do que a Organização Mundial da Saúde recomenda, e os tempos de espera para consulta de psicologia são longos em boa parte do país.
A leitura mais simples é a mais desconfortável: quando a resposta psicológica não está disponível em tempo útil, a resposta farmacológica é a que resta — e frequentemente é dada por quem não queria ser a única resposta disponível, no tempo curto de uma consulta de medicina geral e familiar.
O espaço que isto abre, e o risco que traz
Entre «não fazer nada» e «medicar» há um espaço grande. É onde vivem os grupos de suporte, o exercício, a atividade estruturada, a psicoeducação, o contacto com a natureza, e também as tecnologias.
É um espaço legítimo. E é, por isso mesmo, o espaço onde é mais fácil vender ilusões: quem está em sofrimento e sem acesso a resposta compra esperança, e há muita gente a vender.
Vale a pena dizer que uma resposta complementar não é uma alternativa. Um ansiolítico prescrito e uma sessão de relaxamento não estão em concorrência, e apresentar a segunda como forma de evitar o primeiro é uma decisão clínica que não pertence a um fornecedor.
O que a RVer é, e o que não é, nesta conversa
Sendo explícitos, porque nesta área a imprecisão faz mal:
- Não é tratamento de saúde mental. O produto base é um dispositivo médico de Classe I registado no Infarmed, usado como complemento não farmacológico para conforto, distração e relaxamento, sob supervisão da equipa de saúde.
- Não substitui psicoterapia, consulta ou medicação.
- Não avalia, não classifica e não diagnostica estados emocionais. Não há pontuação de bem-estar.
- Não é para autoadministração. A finalidade prevista exige acompanhamento — o que a torna, por desenho, inadequada como resposta individual a quem está em lista de espera.
O que existe: literatura sobre ambientes imersivos em ansiedade e stress, sobretudo em situações concretas — o momento antes de um procedimento, o internamento, o contexto institucional. Reunimo-la na biblioteca de estudos, onde o tema do relaxamento, stress e ansiedade é dos mais representados. E já escrevemos sobre ansiedade pré-operatória, que é o caso com melhor sustentação.
Há uma exceção que convém nomear com rigor: a exposição gradual em contexto de fobias e perturbação de stress pós-traumático tem um corpo de investigação próprio e mais antigo, conduzido por profissionais. No nosso caso, isso é o RVer Exposure — um módulo em desenvolvimento e não abrangido pelo registo, em que o clínico escolhe o nível e define o ritmo, sem progressão automática, sem pontuação e sem classificação.
Onde faz sentido, e onde não
Faz sentido dentro de um serviço que já acompanha a pessoa: um internamento, um hospital de dia, uma unidade, um lar. Há profissional, há continuidade e há registo.
Não faz sentido como resposta a quem está numa lista de espera e não tem acompanhamento. Não porque o equipamento não funcione — porque não é isso que ele é, e porque a ausência de acompanhamento é precisamente o problema que nenhum equipamento resolve.
Se lhe apresentarem realidade virtual como forma de reduzir listas de espera em saúde mental, é o momento de perguntar que estudos sustentam isso. Nós não temos nenhum para lhe dar.
Em resumo
- Consumo elevado de psicofármacos e acesso limitado a psicoterapia são o mesmo problema visto de dois lados.
- O espaço para respostas complementares é real — e é onde mais se vende esperança.
- Complementar não é alternativa, e a decisão sobre medicação não é de um fornecedor.
- A RVer não trata, não avalia e não substitui consulta nem psicoterapia.
- Onde há equipa a acompanhar, faz sentido. Numa lista de espera, não.