O RVer não é só para pessoas com demência: é usado com utentes dos 10 aos 100 anos, em hospitais, lares e cuidados paliativos. Mas é uma das perguntas que mais nos fazem, e merece resposta própria.
Resposta curta
Como complemento não farmacológico, conduzido por alguém da equipa, a realidade virtual tem sido estudada sobretudo para bem-estar, humor, envolvimento e reminiscência em pessoas com défice cognitivo ligeiro ou demência. Os estudos são, na maioria, pequenos e curtos. O que sustentam é um uso modesto: um bom momento, uma conversa, um lugar de volta.
O que a investigação estudou
A biblioteca de estudos da RVer reúne dezenas de referências sobre realidade virtual e qualidade de vida, e uma parte importante é sobre pessoas com défice cognitivo ou demência. Alguns exemplos:
- Uma meta-análise sobre a eficácia da realidade virtual em pessoas com défice cognitivo ligeiro ou demência (Kim, 2019).
- Uma revisão de âmbito sobre realidade virtual para promover o bem-estar de pessoas com demência (Appel, 2021).
- Um estudo piloto sobre reminiscência com headsets de realidade virtual em pessoas com demência (Coelho, 2020).
- Um estudo piloto com uma floresta virtual em pessoas com demência (Moyle, 2018).
- Uma revisão de âmbito sobre realidade virtual imersiva em intervenções de reminiscência com pessoas mais velhas (Lu, 2023).
- Um trabalho da equipa RVer sobre défice cognitivo e depressão em pessoas mais velhas (Ferreira, 2022), assinalado como tal na biblioteca.
O que não se sabe também importa. As medidas usadas variam muito de estudo para estudo, as intervenções duram semanas e o seguimento é curto. Também há pouca investigação que distinga as fases da demência e os contextos (casa, lar, hospital). Quem lhe prometer resultados clínicos com base nisto está a exagerar.
Reminiscência: o uso mais natural
A terapia de reminiscência usa memórias antigas como ponto de partida para conversar. Na demência, as memórias mais antigas costumam ficar mais tempo, e é aí que um vídeo imersivo ajuda: em vez de uma fotografia, a pessoa está outra vez na praia onde passava o verão, na romaria da terra, no santuário onde ia todos os anos. Entre os conteúdos do RVer, Fátima é dos mais pedidos.
O que torna uma sessão de reminiscência boa não é o equipamento, é a preparação:
- Saber de onde a pessoa vem. A ficha de história de vida, preenchida com a família, diz que lugares escolher e quais evitar.
- Conversar durante e depois. «Já esteve aqui?», «Quem ia consigo?». A estimulação cognitiva por reminiscência acontece na conversa, não no vídeo.
- Aceitar o que vier. Uma memória pode trazer alegria ou tristeza. As duas são legítimas, e a equipa está lá para isso.
Agitação, apatia e momentos difíceis
Os sintomas comportamentais e psicológicos da demência, como a agitação, a apatia ou a deambulação, são das partes mais exigentes do cuidado. A realidade virtual tem sido estudada como uma das abordagens não farmacológicas possíveis, sobretudo para apatia e humor.
Na prática, há três regras simples:
- Escolher o momento. Uma sessão funciona melhor numa altura calma do que no pico de uma crise. Pôr um headset a alguém muito agitado pode piorar as coisas.
- Observar a cara, não o relógio. Se a pessoa fica tensa, tenta tirar o headset ou não percebe onde está, a sessão acaba ali. Sem insistir.
- Repetir o que resulta. Quando um lugar funciona com alguém, vale a pena voltar a ele. Na demência, a familiaridade conta mais do que a novidade.
Adaptar a sessão à fase da demência
Não há uma sessão de realidade virtual para «a demência»: há pessoas em fases diferentes, com quadros diferentes. Falámos disso em tipos de demência e o que muda numa sessão. Em resumo:
- Fase ligeira. A pessoa percebe o que é a experiência e pode escolher o destino. A conversa é mais rica.
- Fase moderada. Sessões mais curtas, sempre com a mesma pessoa da equipa, explicação simples antes de colocar o headset e conteúdos muito familiares.
- Fase avançada. Ambientes calmos, sem pedido de interação, e atenção redobrada à reação. Às vezes, o melhor é não fazer.
Em todas: sentado ou deitado, nunca de pé, e com alguém ao lado do princípio ao fim. Os cuidados gerais, do cybersickness à epilepsia, estão em a realidade virtual faz mal?
Como o RVer ajuda a equipa
A equipa escolhe o conteúdo num tablet ou computador na rede local, vê o que está a passar e pode pausar ou parar a qualquer momento. Durante a sessão, a família pode juntar-se por videochamada e ver o mesmo lugar, o que dá à reminiscência mais uma voz. A chamada não é gravada, e nenhum dado pessoal ou clínico do utente sai do equipamento.
O produto base, a biblioteca de vídeo, é um dispositivo médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED, com marcação CE. É usado como complemento, sob supervisão da equipa, e não substitui avaliação nem cuidados clínicos.
Há mais sobre este contexto em realidade virtual em lares e ERPI. E, porque a demência também chega ao hospital e aos cuidados paliativos, o mesmo sistema serve esses contextos, com utentes dos 10 aos 100 anos.
Perguntas frequentes
A realidade virtual trata a demência?
Não. Não trata a doença nem a abranda. É estudada como complemento não farmacológico para bem-estar, humor, envolvimento e reminiscência, sempre com alguém da equipa ao lado.
Pode usar-se com alguém agitado?
Não no pico de uma crise. Uma sessão funciona melhor num momento calmo, e acaba logo que a pessoa fique tensa, tente tirar o headset ou não perceba onde está.
Que conteúdos funcionam melhor na demência?
Lugares familiares e calmos, filmados de um ponto fixo: a terra, a praia, uma romaria, um santuário. A ficha de história de vida, preenchida com a família, ajuda a escolher.
Serve em todas as fases da demência?
Adapta-se. Na fase ligeira a pessoa pode escolher e conversar mais; na moderada as sessões são mais curtas; na avançada ficam ambientes calmos, sem pedido de interação, e às vezes o melhor é não fazer.
O RVer é só para pessoas com demência?
Não. É usado com utentes dos 10 aos 100 anos, em hospitais e clínicas, lares, centros de dia e cuidados paliativos.
