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Realidade virtual e demência: o que diz a evidência e como conduzir uma sessão

A realidade virtual não trata a demência, não abranda a doença e não substitui nenhum cuidado. Dito isto logo à partida, fica a pergunta que interessa a uma equipa: pode ajudar a ter melhores momentos com quem vive com demência? A investigação tem estudado precisamente isso, e este artigo resume o que encontrou, o que ainda não se sabe e como se conduz uma sessão com cuidado.

Tema
Estimulação Cognitiva
Leitura
7 min de leitura
Publicado
20 de outubro de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

O RVer não é só para pessoas com demência: é usado com utentes dos 10 aos 100 anos, em hospitais, lares e cuidados paliativos. Mas é uma das perguntas que mais nos fazem, e merece resposta própria.

Resposta curta

Como complemento não farmacológico, conduzido por alguém da equipa, a realidade virtual tem sido estudada sobretudo para bem-estar, humor, envolvimento e reminiscência em pessoas com défice cognitivo ligeiro ou demência. Os estudos são, na maioria, pequenos e curtos. O que sustentam é um uso modesto: um bom momento, uma conversa, um lugar de volta.

O que a investigação estudou

A biblioteca de estudos da RVer reúne dezenas de referências sobre realidade virtual e qualidade de vida, e uma parte importante é sobre pessoas com défice cognitivo ou demência. Alguns exemplos:

  • Uma meta-análise sobre a eficácia da realidade virtual em pessoas com défice cognitivo ligeiro ou demência (Kim, 2019).
  • Uma revisão de âmbito sobre realidade virtual para promover o bem-estar de pessoas com demência (Appel, 2021).
  • Um estudo piloto sobre reminiscência com headsets de realidade virtual em pessoas com demência (Coelho, 2020).
  • Um estudo piloto com uma floresta virtual em pessoas com demência (Moyle, 2018).
  • Uma revisão de âmbito sobre realidade virtual imersiva em intervenções de reminiscência com pessoas mais velhas (Lu, 2023).
  • Um trabalho da equipa RVer sobre défice cognitivo e depressão em pessoas mais velhas (Ferreira, 2022), assinalado como tal na biblioteca.

O que não se sabe também importa. As medidas usadas variam muito de estudo para estudo, as intervenções duram semanas e o seguimento é curto. Também há pouca investigação que distinga as fases da demência e os contextos (casa, lar, hospital). Quem lhe prometer resultados clínicos com base nisto está a exagerar.

Reminiscência: o uso mais natural

A terapia de reminiscência usa memórias antigas como ponto de partida para conversar. Na demência, as memórias mais antigas costumam ficar mais tempo, e é aí que um vídeo imersivo ajuda: em vez de uma fotografia, a pessoa está outra vez na praia onde passava o verão, na romaria da terra, no santuário onde ia todos os anos. Entre os conteúdos do RVer, Fátima é dos mais pedidos.

O que torna uma sessão de reminiscência boa não é o equipamento, é a preparação:

  • Saber de onde a pessoa vem. A ficha de história de vida, preenchida com a família, diz que lugares escolher e quais evitar.
  • Conversar durante e depois. «Já esteve aqui?», «Quem ia consigo?». A estimulação cognitiva por reminiscência acontece na conversa, não no vídeo.
  • Aceitar o que vier. Uma memória pode trazer alegria ou tristeza. As duas são legítimas, e a equipa está lá para isso.

Agitação, apatia e momentos difíceis

Os sintomas comportamentais e psicológicos da demência, como a agitação, a apatia ou a deambulação, são das partes mais exigentes do cuidado. A realidade virtual tem sido estudada como uma das abordagens não farmacológicas possíveis, sobretudo para apatia e humor.

Na prática, há três regras simples:

  • Escolher o momento. Uma sessão funciona melhor numa altura calma do que no pico de uma crise. Pôr um headset a alguém muito agitado pode piorar as coisas.
  • Observar a cara, não o relógio. Se a pessoa fica tensa, tenta tirar o headset ou não percebe onde está, a sessão acaba ali. Sem insistir.
  • Repetir o que resulta. Quando um lugar funciona com alguém, vale a pena voltar a ele. Na demência, a familiaridade conta mais do que a novidade.

Adaptar a sessão à fase da demência

Não há uma sessão de realidade virtual para «a demência»: há pessoas em fases diferentes, com quadros diferentes. Falámos disso em tipos de demência e o que muda numa sessão. Em resumo:

  • Fase ligeira. A pessoa percebe o que é a experiência e pode escolher o destino. A conversa é mais rica.
  • Fase moderada. Sessões mais curtas, sempre com a mesma pessoa da equipa, explicação simples antes de colocar o headset e conteúdos muito familiares.
  • Fase avançada. Ambientes calmos, sem pedido de interação, e atenção redobrada à reação. Às vezes, o melhor é não fazer.

Em todas: sentado ou deitado, nunca de pé, e com alguém ao lado do princípio ao fim. Os cuidados gerais, do cybersickness à epilepsia, estão em a realidade virtual faz mal?

Como o RVer ajuda a equipa

A equipa escolhe o conteúdo num tablet ou computador na rede local, vê o que está a passar e pode pausar ou parar a qualquer momento. Durante a sessão, a família pode juntar-se por videochamada e ver o mesmo lugar, o que dá à reminiscência mais uma voz. A chamada não é gravada, e nenhum dado pessoal ou clínico do utente sai do equipamento.

O produto base, a biblioteca de vídeo, é um dispositivo médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED, com marcação CE. É usado como complemento, sob supervisão da equipa, e não substitui avaliação nem cuidados clínicos.

Há mais sobre este contexto em realidade virtual em lares e ERPI. E, porque a demência também chega ao hospital e aos cuidados paliativos, o mesmo sistema serve esses contextos, com utentes dos 10 aos 100 anos.

Perguntas frequentes

A realidade virtual trata a demência?

Não. Não trata a doença nem a abranda. É estudada como complemento não farmacológico para bem-estar, humor, envolvimento e reminiscência, sempre com alguém da equipa ao lado.

Pode usar-se com alguém agitado?

Não no pico de uma crise. Uma sessão funciona melhor num momento calmo, e acaba logo que a pessoa fique tensa, tente tirar o headset ou não perceba onde está.

Que conteúdos funcionam melhor na demência?

Lugares familiares e calmos, filmados de um ponto fixo: a terra, a praia, uma romaria, um santuário. A ficha de história de vida, preenchida com a família, ajuda a escolher.

Serve em todas as fases da demência?

Adapta-se. Na fase ligeira a pessoa pode escolher e conversar mais; na moderada as sessões são mais curtas; na avançada ficam ambientes calmos, sem pedido de interação, e às vezes o melhor é não fazer.

O RVer é só para pessoas com demência?

Não. É usado com utentes dos 10 aos 100 anos, em hospitais e clínicas, lares, centros de dia e cuidados paliativos.

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