Quem está internado para tratar uma dependência de álcool ou de outras substâncias passa dias longos num sítio fechado, com regras, longe de casa e muitas vezes com o corpo a reagir à falta da substância. A ansiedade, a irritabilidade, o sono que não vem e o tédio fazem parte desses dias. E são, muitas vezes, os momentos em que a vontade de desistir aparece.
A realidade virtual tem sido estudada nas dependências de duas formas muito diferentes. Uma delas encaixa no que o RVer faz hoje; a outra não. Este artigo é para equipas de comunidades terapêuticas, unidades de desabituação e serviços de psiquiatria que querem perceber a diferença.
Duas coisas diferentes com o mesmo nome
Quando se fala de realidade virtual e dependências, fala-se quase sempre de uma destas abordagens:
- Relaxamento. Ambientes calmos — uma floresta, uma praia, um rio — vistos em vídeo 360°, para ajudar a pessoa a gerir a ansiedade e o stress durante o tratamento. Não mexe com a dependência em si; mexe com o estado em que a pessoa atravessa os dias.
- Exposição a estímulos. Cenários que mostram de propósito aquilo que desperta a vontade de consumir — um bar, uma festa, um copo —, para que a pessoa treine, com um terapeuta, a forma de lidar com essa vontade. É uma técnica psicoterapêutica, com investigação própria e crescente.
O RVer, no produto base, faz a primeira e não a segunda. A exposição a estímulos é o tipo de trabalho a que se destina o módulo RVer Exposure, que está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo do dispositivo. Não o oferecemos.
O que dizem os estudos sobre relaxamento
A investigação ainda é pequena, mas existe e é de qualidade razoável. Dois exemplos que estão na biblioteca de estudos, e que não foram feitos com o RVer:
- Um ensaio controlado aleatorizado com 60 pessoas em desintoxicação num centro residencial (Lotfinia e colegas, 2024, Brain and Behavior). Os participantes foram divididos em três grupos: um vídeo 360° de natureza, um vídeo 360° de cidade e nenhuma experiência virtual. Só o grupo da natureza mostrou mudanças nas escalas psicológicas e descidas significativas em sinais fisiológicos de stress, como a condutância da pele e a frequência respiratória. O estudo avaliou uma única sessão.
- Um estudo-piloto com 34 pessoas internadas numa unidade psiquiátrica por perturbações de uso de substâncias (Barrio e colegas, 2025, International Journal of Mental Health and Addiction). Depois de uma sessão com ambientes de natureza, a ansiedade e o humor negativo desceram e o humor positivo subiu. A intervenção foi considerada fácil de usar, com efeitos adversos mínimos. Sem grupo de controlo, os autores tratam os resultados como preliminares.
O primeiro estudo tem um pormenor que interessa a quem escolhe conteúdos: não chega ser realidade virtual. O vídeo da cidade não teve o mesmo efeito que o da natureza. O que se mostra conta tanto como o equipamento.
Escolher o que se mostra
Numa unidade de dependências, escolher o cenário é uma decisão clínica, não um pormenor. Algumas regras práticas:
- Natureza primeiro. Floresta, mar, rio, campo. Ambientes calmos, sem movimentos de câmara rápidos.
- Ver o vídeo inteiro antes. Um passeio pela marginal pode ter uma esplanada cheia de copos; uma aldeia em festa pode ter um arraial. O que é inofensivo para um utente de lar pode ser um gatilho aqui.
- Evitar lugares ligados ao consumo. Bares, discotecas, festas, estádios, e também os sítios que a própria pessoa associa ao consumo. A equipa que conhece a história da pessoa sabe quais são.
- Usar uma biblioteca escolhida pela equipa clínica, e não a internet aberta. O RVer funciona com conteúdo que fica no equipamento e é selecionado de antemão; a lógica está em biblioteca validada.
Como pode correr uma sessão
- Sentado, curta e acompanhada. Nos estudos acima foi uma única sessão; não é preciso mais para começar. Um profissional fica sempre ao lado e acompanha na app Companion o que a pessoa está a ver.
- No momento certo. Uma hora de maior ansiedade — ao fim da tarde, antes de dormir, depois de uma sessão de grupo difícil — e não durante sintomas de abstinência que precisam de cuidados médicos.
- Com a pessoa a decidir. Explicar o que vai ver, dizer que pode parar a qualquer momento, aceitar um não.
- Tirar ao primeiro desconforto. Tonturas e náuseas podem ser cybersickness; os sinais estão em conforto e enjoo. Ansiedade a subir também é razão para parar.
- Registar. O que se viu, quanto tempo, como a pessoa estava antes e depois. É o que permite à equipa perceber se aquilo está a servir àquela pessoa.
Quem pode conduzir as sessões e com que formação está em quem pode conduzir uma sessão.
O que a realidade virtual não faz
Não trata a dependência, não reduz a vontade de consumir e não substitui a psicoterapia, a medicação nem o trabalho de grupo. Uma sessão de relaxamento é um complemento: ajuda a gerir a ansiedade e o stress de um dia de tratamento, como pode ajudar uma caminhada, uma técnica de respiração ou música.
Também não serve para todos. Há pessoas a quem um headset na cara causa mais ansiedade do que alívio, e pessoas com quadros psiquiátricos em que a equipa clínica pode preferir não usar realidade virtual. A diferença entre usar a tecnologia para bem-estar e usá-la como terapia está desenvolvida em realidade virtual e saúde mental: duas coisas diferentes.
Onde o RVer entra
O RVer leva para a unidade uma biblioteca de vídeos 360° que inclui ambientes de natureza, um headset configurado e a app Companion, com que o profissional escolhe o cenário e vê o que a pessoa está a ver. Tudo funciona sem internet e nada sai do equipamento. As sessões ficam registadas para a equipa. O uso nas dependências é o mesmo que noutros contextos: relaxamento acompanhado, como complemento ao tratamento, nunca exposição a estímulos de consumo.
Em resumo
- Nas dependências, a realidade virtual tem sido estudada para relaxamento e para exposição a estímulos; são coisas diferentes.
- O produto base do RVer faz relaxamento acompanhado; a exposição a estímulos é do módulo RVer Exposure, em desenvolvimento e fora do registo.
- Um ensaio com 60 pessoas em desintoxicação e um piloto com 34 internados encontraram menos stress e ansiedade depois de sessões com natureza 360°.
- O conteúdo conta: no ensaio, o vídeo de natureza resultou e o da cidade não.
- Escolher cenários sem estímulos de consumo é uma decisão clínica.
- É um complemento; não trata a dependência nem reduz a vontade de consumir.
Este artigo é informativo e não substitui avaliação clínica. Se precisa de ajuda com uma dependência, fale com o seu médico de família ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24); em situação urgente, 112.
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico concebido para ambientes de saúde, cujo produto base está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), e ostenta marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo.
Perguntas frequentes
A realidade virtual trata a dependência?
Não. Uma sessão de relaxamento é um complemento ao tratamento: ajuda a gerir a ansiedade e o stress dos dias de internamento. Não trata a dependência, não reduz a vontade de consumir e não substitui a psicoterapia, a medicação nem o trabalho de grupo.
O que dizem os estudos?
Um ensaio controlado aleatorizado com 60 pessoas em desintoxicação (Lotfinia e colegas, 2024) encontrou mudanças psicológicas e descidas de sinais fisiológicos de stress só no grupo que viu natureza em 360°, numa única sessão. Um piloto com 34 pessoas internadas (Barrio e colegas, 2025) encontrou menos ansiedade e humor negativo depois da sessão. São estudos pequenos e não foram feitos com o RVer.
O RVer faz exposição a estímulos de consumo?
Não. O produto base do RVer faz relaxamento acompanhado. A exposição a estímulos é o tipo de trabalho a que se destina o módulo RVer Exposure, que está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo do dispositivo.
Que cenários devem ser evitados?
Bares, discotecas, festas, estádios e qualquer lugar que a pessoa associe ao consumo. Vale ver cada vídeo inteiro antes de o usar: um passeio ou uma festa de aldeia podem mostrar copos ou bebidas. Natureza calma é o ponto de partida mais seguro.
