Um exame que muita gente adia
A colonoscopia é um dos exames mais úteis que existem e um dos que mais se adiam. Parte do problema é a preparação. Outra parte é o próprio exame: o desconforto, a sensação de não ter controlo, a expectativa de dor. Em muitas unidades faz-se com sedação, mas nem sempre, e nem todos os doentes a podem ou querem fazer.
É neste espaço que a realidade virtual tem sido estudada. Não como substituto da sedação ou da analgesia, mas como complemento: o doente põe uns óculos, vê outro lugar, e a atenção deixa de estar toda no que está a acontecer ao corpo.
O que mediu um ensaio aleatorizado
Um dos estudos mais citados foi publicado no Turkish Journal of Gastroenterology em 2021 (Karaveli Çakır e colegas). Foram 60 doentes a fazer colonoscopia sem sedação nem anestesia, divididos ao acaso em dois grupos de 30. Um grupo viu um passeio numa praia em realidade virtual, a começar um minuto antes do exame. O outro fez o exame como habitualmente.
O que se viu:
- A dor durante o exame foi mais baixa no grupo com realidade virtual (2,76 contra 3,76 numa escala de 0 a 10), uma diferença estatisticamente significativa.
- A dor depois do exame foi também mais baixa, mas a diferença não foi significativa.
- A ansiedade do momento (ansiedade-estado) não mudou de forma significativa, nem antes nem depois.
- A duração do exame foi praticamente igual nos dois grupos, cerca de sete minutos e meio.
Ou seja: a realidade virtual não atrasou o exame e o doente sentiu menos dor enquanto ele decorria. Sobre a ansiedade, este estudo não encontrou diferença.
Porque isto importa, e onde estão os limites
Um estudo com 60 pessoas num único hospital não chega para tirar conclusões gerais. Os próprios autores usaram uns óculos de cartão com um telemóvel, que é bastante diferente de um equipamento autónomo atual. E a realidade virtual não muda a fisiologia do exame. O que muda é onde está a atenção.
Há vários ensaios registados a estudar a mesma pergunta na endoscopia alta e na colonoscopia, e é provável que nos próximos anos haja dados melhores. Até lá, a leitura honesta é esta: há sinais de que ajuda na dor durante o exame, a evidência sobre ansiedade é mais fraca, e não há indícios de que atrapalhe o trabalho da equipa.
A literatura mais alargada sobre realidade virtual imersiva em procedimentos descreve efeitos na perceção da dor e na ansiedade, e reunimos essa evidência na nossa página de estudos. Também já escrevemos sobre a ansiedade antes de uma cirurgia e sobre o medo de agulhas e procedimentos, onde a lógica é parecida.
Como isto se faria numa unidade de endoscopia
Na prática, a pergunta de uma unidade não é se a realidade virtual "funciona" em abstrato. É se cabe no circuito do doente sem atrasar ninguém. Alguns pontos que ajudam:
- Começar antes. No estudo, o vídeo começava um minuto antes. Muitas equipas preferem pôr os óculos ainda na sala de espera ou na preparação, quando a ansiedade costuma ser maior.
- Conteúdo calmo e sem tarefas. Um lugar real e tranquilo, sem jogos nem comandos. O doente não tem de fazer nada.
- Quem conduz é a equipa. O enfermeiro escolhe o conteúdo e acompanha, e pode parar a qualquer momento.
- Higiene entre doentes. A parte que toca na cara tem capa lavável, e a limpeza faz-se entre utilizações como em qualquer equipamento partilhado.
O RVer é usado por equipas clínicas em contextos de dor e ansiedade associados a procedimentos, sempre com supervisão de um profissional. Não substitui sedação, analgesia nem conversa com o doente. Junta-se ao que a equipa já faz.
Perguntas frequentes
A realidade virtual substitui a sedação numa colonoscopia?
Não. Nos estudos foi usada como complemento, e a decisão sobre sedação continua a ser clínica.
A realidade virtual atrasa o exame?
No ensaio de 2021 a duração do exame foi praticamente igual com e sem realidade virtual.
Reduz a ansiedade?
Nesse ensaio, a ansiedade do momento não mudou de forma significativa. Houve diferença na dor durante o exame.
