As consultas e unidades de dor recebem doentes numa fase específica do percurso: já viram vários médicos, já tentaram várias coisas, e muitos já ouviram que «não há mais nada a fazer». É um contexto onde qualquer proposta nova é recebida com esperança — e é por isso que merece o cuidado maior.
Há uma distinção que decide quase tudo o que se segue.
Dor aguda e dor crónica não são a mesma conversa
Dor aguda — a de um procedimento, de um penso, de uma punção — é um evento com princípio e fim. A atenção é um recurso limitado, e ocupá-la durante esses minutos tem efeito documentado. É aqui que está a evidência mais consistente da realidade virtual em saúde, e já a desenvolvemos em gestão da dor.
Dor crónica é outra coisa. Não é dor aguda que se prolongou: envolve alterações no processamento da dor, medo do movimento, evitamento, sono perturbado, humor, e uma vida que se foi organizando à volta da dor. Distrair alguém durante vinte minutos não muda nada disso.
Confundir as duas é o erro comercial mais comum deste setor. A evidência da primeira é usada para vender na segunda.
O que uma unidade de dor faz, e onde isto pode encaixar
Uma abordagem moderna à dor crónica é multimodal: medicação quando indicada, exercício e reativação do movimento, componente psicológica, educação sobre dor, higiene do sono, e trabalho sobre função em vez de trabalho sobre a intensidade.
Se a realidade virtual tiver um lugar, é dentro de uma dessas componentes, não ao lado delas:
- Durante procedimentos feitos na unidade — infiltrações, bloqueios, colocação de dispositivos. Aqui é dor aguda, e aplica-se a evidência boa.
- No apoio ao movimento, para quem evita mexer-se por medo. O obstáculo é frequentemente o medo, não a capacidade. Nota necessária: isso corresponde ao módulo RVer Motion, que está em desenvolvimento e não é abrangido pelo registo de dispositivo médico Classe I.
- Como componente de relaxamento, dentro de um plano que já existe e conduzido por quem o conduz.
Onde a evidência é fraca, e convém dizê-lo
Em dor crónica, os estudos existentes são na maioria pequenos, curtos e heterogéneos: populações diferentes, protocolos diferentes, desfechos diferentes. Vários mostram melhorias durante a sessão que não se mantêm depois. É um sinal interessante, e não é a mesma coisa que efeito clínico duradouro.
Reunimos o que existe na biblioteca de estudos, onde a dor é um dos temas com mais trabalhos — e ver a lista é mais útil do que qualquer afirmação nossa. Onde a evidência não sustenta, dizemo-lo lá também, como fizemos em o que não se consegue provar.
O que não afirmamos, e não vamos afirmar: que a RVer reduz dor crónica, que reduz consumo de analgésicos, ou que substitui qualquer componente de um plano de dor. O produto base é um dispositivo médico de Classe I usado como complemento não farmacológico, sob supervisão. Não avalia dor, não a mede e não a classifica.
O risco específico desta população
Vale a pena nomeá-lo, porque é diferente de outros contextos: estas pessoas já foram desiludidas várias vezes. Uma proposta apresentada com entusiasmo a mais, que depois não corresponde, não é neutra — reforça a ideia de que nada resulta e custa credibilidade a quem a apresentou, que é a equipa e não o fornecedor.
Por isso, se for para testar, vale a pena dizer ao doente exatamente o que se espera: «isto pode tornar este procedimento mais fácil» é uma coisa; «isto pode ajudar com a sua dor» é outra, e a segunda não se sustenta.
O que uma unidade pode testar sem prometer nada
- Um procedimento concreto que já se faça na unidade, comparando com o habitual.
- Recusas e interrupções, que é onde os problemas aparecem primeiro.
- Função, não intensidade. O que a pessoa consegue fazer é mais informativo do que um número numa escala, e é o que a própria unidade já tende a medir.
- Três meses, não três semanas.
Em resumo
- A evidência boa é de dor aguda, e é frequentemente usada para vender em dor crónica.
- Dor crónica é multimodal — se isto entra, entra dentro de uma componente.
- Em dor crónica os estudos são pequenos e curtos, com efeitos que muitas vezes não persistem.
- Não afirmamos redução de dor nem de analgésicos.
- Prometer de mais a esta população custa credibilidade à equipa, não ao fornecedor.