RVer Artigos · Conhecimento

Artigos / Gestão da Dor

Consulta da dor: onde entra a realidade virtual, e onde não entra

Uma unidade de dor recebe pessoas que já passaram por vários médicos e várias tentativas. É o contexto onde uma promessa nova é mais bem-vinda e onde é mais irresponsável fazê-la sem cuidado.

Tema
Gestão da Dor
Leitura
8 min de leitura
Publicado
21 de agosto de 2026
Autoria
RVer
Âmbito
Produto base · Classe I

As consultas e unidades de dor recebem doentes numa fase específica do percurso: já viram vários médicos, já tentaram várias coisas, e muitos já ouviram que «não há mais nada a fazer». É um contexto onde qualquer proposta nova é recebida com esperança — e é por isso que merece o cuidado maior.

Há uma distinção que decide quase tudo o que se segue.

Dor aguda e dor crónica não são a mesma conversa

Dor aguda — a de um procedimento, de um penso, de uma punção — é um evento com princípio e fim. A atenção é um recurso limitado, e ocupá-la durante esses minutos tem efeito documentado. É aqui que está a evidência mais consistente da realidade virtual em saúde, e já a desenvolvemos em gestão da dor.

Dor crónica é outra coisa. Não é dor aguda que se prolongou: envolve alterações no processamento da dor, medo do movimento, evitamento, sono perturbado, humor, e uma vida que se foi organizando à volta da dor. Distrair alguém durante vinte minutos não muda nada disso.

Confundir as duas é o erro comercial mais comum deste setor. A evidência da primeira é usada para vender na segunda.

O que uma unidade de dor faz, e onde isto pode encaixar

Uma abordagem moderna à dor crónica é multimodal: medicação quando indicada, exercício e reativação do movimento, componente psicológica, educação sobre dor, higiene do sono, e trabalho sobre função em vez de trabalho sobre a intensidade.

Se a realidade virtual tiver um lugar, é dentro de uma dessas componentes, não ao lado delas:

  • Durante procedimentos feitos na unidade — infiltrações, bloqueios, colocação de dispositivos. Aqui é dor aguda, e aplica-se a evidência boa.
  • No apoio ao movimento, para quem evita mexer-se por medo. O obstáculo é frequentemente o medo, não a capacidade. Nota necessária: isso corresponde ao módulo RVer Motion, que está em desenvolvimento e não é abrangido pelo registo de dispositivo médico Classe I.
  • Como componente de relaxamento, dentro de um plano que já existe e conduzido por quem o conduz.

Onde a evidência é fraca, e convém dizê-lo

Em dor crónica, os estudos existentes são na maioria pequenos, curtos e heterogéneos: populações diferentes, protocolos diferentes, desfechos diferentes. Vários mostram melhorias durante a sessão que não se mantêm depois. É um sinal interessante, e não é a mesma coisa que efeito clínico duradouro.

Reunimos o que existe na biblioteca de estudos, onde a dor é um dos temas com mais trabalhos — e ver a lista é mais útil do que qualquer afirmação nossa. Onde a evidência não sustenta, dizemo-lo lá também, como fizemos em o que não se consegue provar.

O que não afirmamos, e não vamos afirmar: que a RVer reduz dor crónica, que reduz consumo de analgésicos, ou que substitui qualquer componente de um plano de dor. O produto base é um dispositivo médico de Classe I usado como complemento não farmacológico, sob supervisão. Não avalia dor, não a mede e não a classifica.

O risco específico desta população

Vale a pena nomeá-lo, porque é diferente de outros contextos: estas pessoas já foram desiludidas várias vezes. Uma proposta apresentada com entusiasmo a mais, que depois não corresponde, não é neutra — reforça a ideia de que nada resulta e custa credibilidade a quem a apresentou, que é a equipa e não o fornecedor.

Por isso, se for para testar, vale a pena dizer ao doente exatamente o que se espera: «isto pode tornar este procedimento mais fácil» é uma coisa; «isto pode ajudar com a sua dor» é outra, e a segunda não se sustenta.

O que uma unidade pode testar sem prometer nada

  1. Um procedimento concreto que já se faça na unidade, comparando com o habitual.
  2. Recusas e interrupções, que é onde os problemas aparecem primeiro.
  3. Função, não intensidade. O que a pessoa consegue fazer é mais informativo do que um número numa escala, e é o que a própria unidade já tende a medir.
  4. Três meses, não três semanas.

Em resumo

  • A evidência boa é de dor aguda, e é frequentemente usada para vender em dor crónica.
  • Dor crónica é multimodal — se isto entra, entra dentro de uma componente.
  • Em dor crónica os estudos são pequenos e curtos, com efeitos que muitas vezes não persistem.
  • Não afirmamos redução de dor nem de analgésicos.
  • Prometer de mais a esta população custa credibilidade à equipa, não ao fornecedor.

Um caso concreto?

Diga-nos qual é a situação

Respondemos com sim, com «é preciso testar», ou com não — as três acontecem, e a última também é útil.

Falar com a equipa →

← Voltar aos artigos