Este artigo é sobre uma hora difícil: a visita a um lar, com um familiar em casa à espera de uma decisão. Escrevemo-lo para famílias, mas serve também a quem dirige uma instituição — porque estas são as perguntas que vão começar a ouvir, e vale a pena ter resposta.
Uma nota de honestidade à partida: somos fabricantes de um sistema usado em lares. Nenhuma das perguntas abaixo é sobre o nosso produto, e a maior parte das boas instituições responde-lhes bem sem terem tecnologia nenhuma.
O que quase toda a gente pergunta
Quarto individual ou duplo, ementa, preço, distância, se há médico. São perguntas necessárias e insuficientes: são todas sobre instalações e contrato, que é a parte visível e a mais fácil de arranjar para uma visita.
O que decide a vida de alguém lá dentro é outra coisa — o que acontece entre as refeições. Um dia tem catorze horas acordado.
As doze perguntas
Sobre o dia
- O que é que a maioria das pessoas está a fazer agora? Faça a pergunta a olhar para a sala. A resposta melhor é a que corresponde ao que está a ver.
- Quantas horas por dia a televisão está ligada na sala comum? Não é para condenar a televisão. É para perceber se é o programa ou o ambiente.
- O que acontece entre as 15h e as 18h? É a janela onde a agitação aparece com mais frequência em pessoas com demência, e onde a diferença entre instituições é maior. Já escrevemos sobre a agitação ao entardecer.
- Quem não sai do quarto, e porquê? Toda a instituição tem essas pessoas. A resposta boa nomeia-as e explica; a resposta má é que não há.
Sobre as atividades
- Quem planeia as atividades, e com que formação?
- O que é que fazem com quem não participa? É a pergunta mais reveladora da lista. Um plano só para quem já participa é meio plano.
- Há atividades individuais, ou só de grupo? Quem tem demência avançada, défice auditivo ou simplesmente não gosta de grupos fica de fora dos programas que só têm grupo.
- Fica registado o que cada pessoa fez? Ou o registo é só de medicação e incidentes? Sem registo, ninguém consegue dizer daqui a três meses se algo mudou.
Sobre a família e a pessoa
- Como é que sabem o que esta pessoa gostava? Há uma conversa de história de vida, ou preenche-se uma ficha de admissão? A biografia é a única coisa que torna uma atividade pessoal.
- Quais são os horários de visita, e o que acontece fora deles?
- Como é que a família em Inglaterra fala com ela? Metade das famílias portuguesas tem alguém emigrado. Se a resposta for «temos o telefone da sala», é uma resposta.
- Quem me liga se algo mudar, e ao fim de quanto tempo?
Sinais que devem preocupar
- «Temos atividades todos os dias» sem conseguir descrever a de ontem.
- Um plano de atividades afixado e desatualizado. Diz mais do que um plano inexistente.
- Toda a gente sentada em fila voltada para o mesmo sítio, a qualquer hora.
- Nenhuma resposta sobre quem não participa.
- Tecnologia exibida na visita e sem uso combinado. Vale para o nosso equipamento tanto como para qualquer outro: se estiver numa prateleira a impressionar visitas, não está a ser usado.
Sobre a tecnologia, com franqueza
Se lhe mostrarem equipamento — de realidade virtual ou outro — faça três perguntas simples: quantas sessões fizeram no último mês, quem as conduz, e onde é que isso fica registado. Se não houver resposta a estas três, o equipamento é decoração.
E o contrário também é verdade: um lar sem tecnologia nenhuma pode ser excelente. O que distingue não é o equipamento, é haver alguém que sabe o nome da pessoa, o que ela gostava, e o que fez ontem.
Em resumo
- A hora da visita gasta-se quase toda no que menos importa.
- A pergunta que mais revela é o que fazem com quem não participa.
- Sem registo do que cada pessoa faz, ninguém consegue provar nada — nem para bem nem para mal.
- Equipamento sem sessões contadas é decoração.
- Um bom lar sem tecnologia é melhor do que um mau lar com ela.