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Catorze fatores de risco de demência: onde entra a tecnologia, e onde não entra

A comissão do Lancet sobre demência atualizou a lista em 2024: são agora 14 fatores modificáveis, e até 45% dos casos poderiam, em teoria, ser evitados se todos fossem eliminados. Um deles é o isolamento social, e é o único em que uma sessão de tecnologia tem alguma coisa a dizer.

Tema
Evidência e tendências
Leitura
7 min de leitura
Publicado
4 de setembro de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

Em julho de 2024, a comissão do Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados na demência publicou a atualização do seu relatório. Passaram a ser 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida, e a estimativa que ficou a circular é esta: até 45% dos casos futuros de demência poderiam ser evitados se todos os 14 fossem eliminados.

É um número que aparece em muitos slides, incluindo os de fornecedores de tecnologia. Vale a pena perceber o que ele diz.

Os catorze

Aos doze anteriores (baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar e isolamento social), a atualização de 2024 acrescentou dois:

  • colesterol LDL elevado na meia-idade, com cerca de 7% do risco atribuível;
  • perda de visão não tratada na idade avançada, com cerca de 2%.

O que «45% evitável» quer dizer, e o que não quer

Esta é a parte que se perde na citação, e é a parte que interessa.

É uma estimativa populacional, não uma promessa individual. Diz o que aconteceria à incidência num país se aqueles fatores desaparecessem todos. Não diz que uma pessoa concreta que corrija um fator reduz o seu risco em nenhuma percentagem conhecida.

É um cenário-limite. «Se todos os 14 fossem eliminados» não é um plano; nenhum sistema de saúde do mundo elimina a poluição do ar e a baixa escolaridade.

Risco atribuível não é causalidade demonstrada para cada fator, e a própria comissão o assinala. É a melhor síntese disponível, e continua a ser uma síntese.

E a maior parte dos fatores é de meia-idade ou antes. Escolaridade, hipertensão, colesterol, tabaco: quando alguém entra num lar, a janela de vários deles fechou há décadas. A prevenção séria acontece muito antes da porta de uma ERPI.

O que um lar pode mesmo fazer da lista

Seis, e nenhum é tecnológico:

  • Perda auditiva: verificar se o aparelho existe, se tem pilha e se é usado. É provavelmente a intervenção com melhor relação entre esforço e efeito de toda a lista.
  • Perda de visão: a novidade de 2024. Cataratas por operar e óculos errados são frequentes e tratáveis.
  • Hipertensão e diabetes: já estão a ser geridas; a questão é se estão controladas.
  • Inatividade física: o que existe, com que frequência, e para quem não vai às aulas de grupo.
  • Depressão: subdiagnosticada, e confundida com «está mais calado».
  • Isolamento social: o único onde entra a conversa que se segue.

Se uma direção técnica quiser agir sobre risco de demência a partir desta lista, é por aqui que começa, e não por um catálogo de fornecedores. Dizê-lo é contra o nosso interesse comercial imediato e é a única leitura honesta do relatório.

O isolamento social, e a fronteira

O isolamento social está na lista desde antes de 2024, e é real: os dados portugueses que citámos em declínio cognitivo sem diagnóstico nos lares mostram uma população institucionalizada com contacto exterior muito reduzido: três em cada quatro pessoas com demência em lar não saem à rua e mais de um quarto nunca recebe visitas.

Aqui é preciso ser exato, porque é o ponto onde toda a gente estica:

Reduzir isolamento com tecnologia não é o mesmo que reduzir risco de demência. O fator de risco identificado pela comissão é o isolamento ao longo de anos, não a solidão de uma tarde. Nenhum estudo mostra que sessões de realidade virtual alteram a incidência de demência, e não conhecemos nenhum que o tenha sequer tentado medir.

O contacto humano não é substituível. O que a evidência associa a menor risco é convívio real e continuado. Uma videochamada com a família é contacto humano com um meio pelo meio; um cenário imersivo, por muito bom que seja, não é.

O que fica é modesto e verdadeiro: uma sessão pode dar assunto, pode dar prazer numa tarde, pode ser feita com outra pessoa ao lado e pode ser o motivo pelo qual alguém sai do quarto. Isso vale por si: não precisa de ser vendido como prevenção de demência, e não deve. É assim que o RVer entra no dia de um lar.

A frase que não devem deixar passar

Se um fornecedor (nós ou outro) ligar um produto aos 45% da comissão do Lancet, a pergunta é simples: em que ensaio é que este produto reduziu a incidência de demência?

A resposta honesta hoje, para qualquer produto de realidade virtual no mercado, é nenhum. O que existe é literatura de bem-estar, reminiscência e estimulação, que descrevemos em demência e Alzheimer e em estimulação cognitiva, e que mede outra coisa (a biblioteca reúne-a no tema qualidade de vida).

A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não previnem, tratam nem retardam demência.

Perguntas frequentes

Quais são os 14 fatores de risco modificáveis de demência?

Baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar e isolamento social (os doze anteriores), mais os dois acrescentados em 2024: colesterol LDL elevado na meia-idade (cerca de 7% do risco atribuível) e perda de visão não tratada na idade avançada (cerca de 2%).

O que significa dizer que 45% dos casos são evitáveis?

É uma estimativa populacional num cenário-limite: o que aconteceria à incidência se todos os 14 fatores fossem eliminados. Não diz que uma pessoa concreta que corrija um fator reduz o seu risco numa percentagem conhecida, e não é o mesmo que causalidade demonstrada para cada fator.

A realidade virtual previne a demência?

Não. Não conhecemos nenhum estudo que mostre que sessões de realidade virtual alteram a incidência de demência, e a literatura existente mede outras coisas: bem-estar, reminiscência, participação. Um produto que ligue os 45% da comissão do Lancet a si próprio deve ser confrontado com uma pergunta: em que ensaio reduziu a incidência?

O isolamento social conta como fator de risco. Isso não valida a tecnologia?

Não da forma como costuma ser usado. O fator identificado é o isolamento ao longo de anos, não a solidão de uma tarde, e o que a evidência associa a menor risco é convívio real e continuado. Uma sessão pode dar assunto, prazer e um motivo para sair do quarto, o que vale por si, sem ser apresentado como prevenção.

O que pode um lar fazer a partir desta lista?

Seis coisas, nenhuma tecnológica: verificar aparelhos auditivos (existência, pilha e uso), tratar perda de visão como cataratas por operar e óculos desatualizados, confirmar que hipertensão e diabetes estão controladas, olhar para a atividade física de quem não vai às aulas de grupo, e não confundir depressão com «está mais calado».

Um caso concreto?

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Respondemos com sim, com «é preciso testar», ou com não. As três acontecem, e a última também é útil.

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