Artigos / Estimulação Cognitiva

«Quanto mais cedo souber, mais pode fazer»: o diagnóstico que falta nos lares

A campanha internacional deste setembro tem um tema que, em Portugal, bate num número concreto: «quanto mais cedo souber, mais pode fazer». Nos lares portugueses há uma parte substancial de residentes sobre quem ninguém sabe ao certo.

Tema
Estimulação Cognitiva
Leitura
6 min de leitura
Publicado
5 de setembro de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

Escrito para o Mês Mundial do Alzheimer de 2026. As cinco coisas valem para qualquer mês.

Setembro é o Mês Mundial do Alzheimer, com o Dia Mundial a 21 de setembro (está, com os outros, no calendário de dias mundiais da saúde). O tema da campanha da Alzheimer's Disease International para 2026 é «The Earlier You Know, The More You Can Do: A Dementia Diagnosis Matters»: quanto mais cedo souber, mais pode fazer.

É um tema que se presta a cartazes. Também se presta a uma pergunta desconfortável, e é essa que vale a pena fazer numa instituição portuguesa.

O número que corresponde ao tema

Um estudo transversal em 423 estruturas residenciais para pessoas idosas portuguesas, feito por investigadores das Universidades de Coimbra e de Aveiro no âmbito do projeto SINDIA e publicado na Acta Médica Portuguesa, encontrou, em média: cerca de um terço dos residentes com diagnóstico formal de demência, e cerca de um quinto com suspeita de declínio cognitivo sem diagnóstico registado.

Escrevemos sobre o que isso muda na condução de uma sessão em declínio cognitivo sem diagnóstico nos lares. Aqui interessa outra coisa: esse quinto é exatamente a população de que a campanha fala. Não são pessoas por diagnosticar num consultório distante: estão numa instituição, com equipa a vê-las todos os dias.

Diagnosticar é um ato clínico. Nada neste artigo, e nada num equipamento de realidade virtual, substitui uma avaliação. O que uma instituição pode fazer é encurtar o caminho até ela.

Porque é que «mais cedo» muda alguma coisa

A objeção honesta aparece cedo nestas conversas: para quê diagnosticar, se não há cura? Tem três respostas, e nenhuma delas é uma promessa terapêutica.

Muda o que é reversível. Uma parte das suspeitas de demência não é demência: é depressão, hipotiroidismo, défice de B12, efeito de medicação, infeção urinária, perda auditiva ou visual mal corrigida. Sem avaliação, isso não se distingue, e essas coisas tratam-se.

Muda as decisões que a pessoa ainda pode tomar sozinha. Onde quer viver, que cuidados quer receber, quem decide por si quando já não puder. Um diagnóstico tardio tira à pessoa a janela em que essas decisões ainda são dela, e o Estatuto da Pessoa Idosa diz que essa autonomia é um direito.

Muda a forma como a equipa lê o comportamento. «Está a ser difícil» e «tem uma doença que lhe afeta a linguagem» produzem cuidados diferentes, com as mesmas pessoas e o mesmo orçamento. E o quadro concreto muda o que resulta numa atividade, como descrevemos em tipos de demência.

Cinco coisas para fazer, sem depender de ninguém

Nenhuma exige orçamento, e nenhuma exige tecnologia:

  1. Contar. Quantos residentes têm diagnóstico registado no processo? Sobre quantos existe suspeita escrita, sem avaliação? A diferença entre os dois números é o trabalho de setembro.
  2. Escrever a observação, não a impressão. «Repetiu a mesma pergunta quatro vezes em vinte minutos, a 3 de setembro» vale numa consulta. «Está mais confuso» não vale.
  3. Verificar audição e visão primeiro. Um aparelho auditivo sem pilha e uma catarata por operar imitam declínio cognitivo, e são as duas coisas mais fáceis de excluir. A perda auditiva é, aliás, um dos fatores com maior peso na lista dos 14 fatores de risco.
  4. Levar a lista ao médico assistente, com datas. Uma sequência datada de observações vale mais numa consulta de vinte minutos do que a memória de quem está de turno nesse dia.
  5. Falar com as famílias. Setembro dá a desculpa perfeita para a conversa que se anda a adiar, e a campanha existe precisamente para isso.

O que a tecnologia faz aqui, e o que não faz

Não diagnostica. Nenhuma sessão de realidade virtual avalia, gradua ou deteta demência, e desconfiem de quem o sugerir.

O que um registo consistente de sessões dá é matéria-prima para quem avalia: o que se usou, quanto tempo, como a pessoa reagiu, o que interrompeu, observações datadas de funcionamento fora da consulta, que é onde a maior parte da vida acontece. É a mesma coisa que um bom registo de atividades dá, com a diferença de ser mais fácil de manter.

E o resto do que fazemos (reminiscência, estimulação, conforto) é bem-estar e atividade, medido em como correu a tarde, e é assim que entra no dia de um lar. Não altera o curso da doença, e a campanha deste mês também não pede isso a ninguém.

A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I registado no INFARMED e na EUDAMED. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem avaliação, diagnóstico ou acompanhamento clínico.

Perguntas frequentes

Qual é o tema do Mês Mundial do Alzheimer de 2026?

«The Earlier You Know, The More You Can Do: A Dementia Diagnosis Matters»: quanto mais cedo souber, mais pode fazer. É a campanha da Alzheimer's Disease International para setembro de 2026, com o Dia Mundial do Alzheimer a 21 de setembro, e centra-se no diagnóstico atempado.

Para que serve diagnosticar demência se não há cura?

Por três razões que não são terapêuticas. Uma parte das suspeitas não é demência: é depressão, défice de B12, hipotiroidismo, efeito de medicação, perda auditiva ou visual mal corrigida, e essas causas tratam-se. Um diagnóstico atempado preserva a janela em que a própria pessoa ainda decide sobre a sua vida. E muda a forma como a equipa lê o comportamento, com o mesmo orçamento.

Quantos residentes em lares portugueses têm suspeita sem diagnóstico?

Num estudo em 423 ERPI portuguesas (projeto SINDIA, Universidades de Coimbra e Aveiro, publicado na Acta Médica Portuguesa), cerca de um quinto dos residentes apresentava suspeita de declínio cognitivo sem diagnóstico registado, e cerca de um terço tinha diagnóstico formal. Os valores referem-se ao universo inquirido.

O que pode uma instituição fazer em setembro sem orçamento?

Contar quantos residentes têm diagnóstico e sobre quantos há suspeita sem avaliação; registar observações datadas em vez de impressões; verificar audição e visão, que imitam declínio cognitivo e são fáceis de excluir; levar essa lista ao médico assistente; e usar a campanha como pretexto para a conversa com as famílias.

A realidade virtual ajuda a detetar demência?

Não. Nenhuma sessão avalia, gradua ou deteta demência. O que um registo consistente de sessões dá é matéria-prima para quem avalia: observações datadas de como a pessoa funciona fora da consulta.

Um caso concreto?

Diga-nos qual é a situação

Respondemos com sim, com «é preciso testar», ou com não. As três acontecem, e a última também é útil.

Pedir proposta →

← Voltar aos artigos