Setembro é o Mês Mundial do Alzheimer, com o Dia Mundial a 21 de setembro. O tema da campanha da Alzheimer's Disease International para 2026 é «The Earlier You Know, The More You Can Do: A Dementia Diagnosis Matters» — quanto mais cedo souber, mais pode fazer.
É um tema que se presta a cartazes. Também se presta a uma pergunta desconfortável, e é essa que vale a pena fazer numa instituição portuguesa.
O número que corresponde ao tema
Um estudo transversal em 423 estruturas residenciais para pessoas idosas portuguesas, feito por investigadores das Universidades de Coimbra e de Aveiro no âmbito do projeto SINDIA e publicado na Acta Médica Portuguesa, encontrou, em média: cerca de um terço dos residentes com diagnóstico formal de demência, e cerca de um quinto com suspeita de declínio cognitivo sem diagnóstico registado.
Escrevemos sobre o que isso muda na condução de uma sessão em declínio cognitivo sem diagnóstico nos lares. Aqui interessa outra coisa: esse quinto é exatamente a população de que a campanha fala. Não são pessoas por diagnosticar num consultório distante — estão numa instituição, com equipa a vê-las todos os dias.
Diagnosticar é um ato clínico. Nada neste artigo, e nada num equipamento de realidade virtual, substitui uma avaliação. O que uma instituição pode fazer é encurtar o caminho até ela.
Porque é que «mais cedo» muda alguma coisa
A objeção honesta aparece cedo nestas conversas: para quê diagnosticar, se não há cura? Tem três respostas, e nenhuma delas é uma promessa terapêutica.
Muda o que é reversível. Uma parte das suspeitas de demência não é demência: é depressão, hipotiroidismo, défice de B12, efeito de medicação, infeção urinária, perda auditiva ou visual mal corrigida. Sem avaliação, isso não se distingue — e essas coisas tratam-se.
Muda as decisões que a pessoa ainda pode tomar sozinha. Onde quer viver, que cuidados quer receber, quem decide por si quando já não puder. Um diagnóstico tardio tira à pessoa a janela em que essas decisões ainda são dela — e o Estatuto da Pessoa Idosa diz que essa autonomia é um direito.
Muda a forma como a equipa lê o comportamento. «Está a ser difícil» e «tem uma doença que lhe afeta a linguagem» produzem cuidados diferentes, com as mesmas pessoas e o mesmo orçamento. E o quadro concreto muda o que resulta numa atividade, como descrevemos em tipos de demência.
Cinco coisas para fazer este mês, sem depender de ninguém
Nenhuma exige orçamento, e nenhuma exige tecnologia:
- Contar. Quantos residentes têm diagnóstico registado no processo? Sobre quantos existe suspeita escrita, sem avaliação? A diferença entre os dois números é o trabalho de setembro.
- Escrever a observação, não a impressão. «Repetiu a mesma pergunta quatro vezes em vinte minutos, a 3 de setembro» vale numa consulta. «Está mais confuso» não vale.
- Verificar audição e visão primeiro. Um aparelho auditivo sem pilha e uma catarata por operar imitam declínio cognitivo — e são as duas coisas mais fáceis de excluir. A perda auditiva é, aliás, um dos fatores com maior peso na lista dos 14 fatores de risco.
- Levar a lista ao médico assistente, com datas. Uma sequência datada de observações vale mais numa consulta de vinte minutos do que a memória de quem está de turno nesse dia.
- Falar com as famílias. Setembro dá a desculpa perfeita para a conversa que se anda a adiar, e a campanha existe precisamente para isso.
O que a tecnologia faz aqui, e o que não faz
Não diagnostica. Nenhuma sessão de realidade virtual avalia, gradua ou deteta demência, e desconfiem de quem o sugerir.
O que um registo consistente de sessões dá é matéria-prima para quem avalia: o que se usou, quanto tempo, como a pessoa reagiu, o que interrompeu — observações datadas de funcionamento fora da consulta, que é onde a maior parte da vida acontece. É a mesma coisa que um bom registo de atividades dá, com a diferença de ser mais fácil de manter.
E o resto do que fazemos — reminiscência, estimulação, conforto — é bem-estar e atividade, medido em como correu a tarde. Não altera o curso da doença, e a campanha deste mês também não pede isso a ninguém.
A plataforma RVer tem como produto base um Dispositivo Médico Classe I certificado pelo Infarmed. As sessões são conduzidas por profissionais da instituição, complementam os cuidados existentes e não substituem avaliação, diagnóstico ou acompanhamento clínico.