Reabilitação

AVC e realidade virtual: o que a evidência mostra (e o que não mostra)

Reunimos seis revisões sistemáticas e meta-análises recentes, incluindo a Cochrane de 2025, para perceber o que a realidade virtual faz — e não faz — na reabilitação depois de um AVC.

Depois de um AVC, cerca de 80% dos sobreviventes ficam com algum grau de disfunção motora do membro superior. A reabilitação funciona — mas é lenta, exige repetição em grande volume e depende de uma coisa difícil de garantir na prática: que a pessoa faça mais tempo de terapia do que consegue tolerar num ginásio convencional.

É exactamente aí que a realidade virtual tem sido estudada. Reunimos seis revisões sistemáticas e meta-análises recentes — incluindo a revisão Cochrane de referência, actualizada em 2025 — para responder a uma pergunta simples: o que é que a evidência mostra, e o que é que ainda não mostra?

1. O maior benefício vem de acrescentar, não de substituir

É o achado mais consistente de todos, e o mais fácil de ignorar.

A revisão Cochrane (Laver et al., 2025) encontra evidência de certeza moderada a baixa de que a RV é ligeiramente mais benéfica do que abordagens alternativas na função do membro superior, no equilíbrio e na limitação de actividade. Mas sublinha que o benefício é mais claro quando a RV é acrescentada aos cuidados habituais — aumentando o tempo total de terapia — do que quando os substitui.

A leitura correcta não é "a RV é melhor do que o fisioterapeuta". É que a RV permite fazer mais dose de reabilitação, e a dose conta.

2. Na marcha e no equilíbrio, a evidência é sólida

A revisão de Corbetta et al. (2015), sobre 15 ensaios aleatorizados e 341 participantes, mostrou que substituir parte ou a totalidade da reabilitação convencional por reabilitação com RV produziu melhorias significativas na velocidade da marcha, no equilíbrio e na mobilidade. Quando acrescentada à terapia convencional, o benefício manteve-se na mobilidade.

3. No membro superior, o efeito é amplo — e a janela temporal importa

A maior revisão do conjunto, de Soleimani et al. (2024), rastreou 11 834 estudos e incluiu 55, com 2142 doentes. A RV superou a terapia convencional na função motora do membro superior, na independência funcional, na qualidade de vida, na espasticidade e na destreza.

Dois parâmetros práticos saem dessa revisão:

  • intervenções com mais de seis semanas deram melhores resultados;
  • iniciar nos primeiros seis meses após o AVC optimizou os desfechos.

Villarroel et al. (2025) acrescenta duas notas úteis: os ganhos são mais pronunciados nas fases aguda e subaguda, e combinar RV com terapia convencional deu melhores resultados do que RV isolada. Curiosamente, se o software é um jogo comercial ou uma aplicação desenvolvida para reabilitação não alterou os desfechos.

4. Onde a evidência ainda discorda: a imersão

Aqui não há consenso, e seria desonesto fingir que há.

Soleimani concluiu que a RV totalmente imersiva obteve os maiores ganhos na motricidade grosseira, com as abordagens não imersivas a destacarem-se na destreza fina.

Mas a meta-análise em rede de Zhang et al. (2025), com 34 ensaios e 1704 participantes, ordenou as modalidades de outra forma: o Microsoft Kinect foi o mais eficaz na função motora do membro superior, seguido da Nintendo Wii e da RV não imersiva — e os dispositivos imersivos de cabeça não mostraram diferença estatisticamente significativa face à terapia convencional.

E Kenea et al. (2025), sobre RV imersiva, encontrou melhorias estatisticamente significativas na escala Fugl-Meyer e no Box and Block Test que, nas palavras dos próprios autores, não atingiram os limiares de significado clínico.

Uma diferença estatisticamente significativa não é automaticamente uma diferença que o doente sente. É uma distinção que vale a pena exigir de qualquer fornecedor de tecnologia de saúde — incluindo nós.

5. E o custo? Estes estudos não respondem

Vale a pena dizê-lo com clareza: nenhuma destas seis revisões mediu custos, tempo até à alta ou retorno do investimento. Medem função motora, equilíbrio, destreza, independência e qualidade de vida.

Existe evidência económica sobre RV em saúde, mas incide sobretudo em dor e internamento — não no AVC. A pergunta "a RV torna a reabilitação do AVC mais barata?" continua, honestamente, em aberto, e desconfie de quem lhe disser o contrário sem citar um estudo.

O que isto significa na prática

Lendo as seis em conjunto, o padrão que emerge é razoavelmente claro:

  1. A RV é um complemento, não um substituto. O ganho vem sobretudo de mais dose de terapia, com supervisão clínica.
  2. Começar cedo e manter. Primeiros seis meses, programas acima de seis semanas.
  3. A modalidade importa e ainda está em discussão. Quem afirmar o contrário está a vender, não a citar.
  4. O caso económico ainda não está feito para o AVC especificamente.

O RVer é um sistema de realidade virtual concebido para ser utilizado sob supervisão de profissionais de saúde, como complemento não farmacológico dos programas de reabilitação existentes — nunca em substituição de cuidados médicos.

As seis revisões citadas estão ligadas ao longo do artigo: cinco têm texto integral livre no PubMed Central e a sexta tem resumo aberto no PubMed. Não é preciso acreditar em nós — leia as fontes.

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Se trabalha em reabilitação pós-AVC e quer perceber onde é que a realidade virtual encaixa no vosso protocolo, mostramos o sistema e discutimos a evidência sem rodeios.

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