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AVC e realidade virtual: o que a evidência mostra (e o que não mostra)

Reunimos seis revisões sistemáticas e meta-análises recentes, incluindo a Cochrane de 2025, para perceber o que a realidade virtual faz, e não faz, na reabilitação depois de um AVC.

Tema
Reabilitação
Leitura
7 min de leitura
Publicado
3 de agosto de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

Depois de um AVC, cerca de 80% dos sobreviventes ficam com algum grau de disfunção motora do membro superior. A reabilitação funciona, mas é lenta, exige repetição em grande volume e depende de uma coisa difícil de garantir na prática: que a pessoa faça mais tempo de terapia do que consegue tolerar num ginásio convencional.

É exatamente aí que a realidade virtual tem sido estudada. Reunimos seis revisões sistemáticas e meta-análises recentes (incluindo a revisão Cochrane de referência, atualizada em 2025) para responder a uma pergunta simples: o que é que a evidência mostra, e o que é que ainda não mostra?

O maior benefício vem de acrescentar, não de substituir

É o achado mais consistente de todos, e o mais fácil de ignorar.

A revisão Cochrane (Laver et al., 2025) encontra evidência de certeza moderada a baixa de que a RV é ligeiramente mais benéfica do que abordagens alternativas na função do membro superior, no equilíbrio e na limitação de atividade. Mas sublinha que o benefício é mais claro quando a RV é acrescentada aos cuidados habituais, aumentando o tempo total de terapia, do que quando os substitui.

A leitura correta não é "a RV é melhor do que o fisioterapeuta". É que a RV permite fazer mais dose de reabilitação, e a dose conta.

Na marcha e no equilíbrio, a evidência é sólida

A revisão de Corbetta et al. (2015), sobre 15 ensaios aleatorizados e 341 participantes, mostrou que substituir parte ou a totalidade da reabilitação convencional por reabilitação com RV produziu melhorias significativas na velocidade da marcha, no equilíbrio e na mobilidade. Quando acrescentada à terapia convencional, o benefício manteve-se na mobilidade.

No membro superior, o efeito é amplo, e a janela temporal importa

A maior revisão do conjunto, de Soleimani et al. (2024), rastreou 11 834 estudos e incluiu 55, com 2142 doentes. A RV superou a terapia convencional na função motora do membro superior, na independência funcional, na qualidade de vida, na espasticidade e na destreza.

Dois parâmetros práticos saem dessa revisão:

  • intervenções com mais de seis semanas deram melhores resultados;
  • iniciar nos primeiros seis meses após o AVC otimizou os desfechos.

Villarroel et al. (2025) acrescenta duas notas úteis: os ganhos são mais pronunciados nas fases aguda e subaguda, e combinar RV com terapia convencional deu melhores resultados do que RV isolada. Curiosamente, se o software é um jogo comercial ou uma aplicação desenvolvida para reabilitação não alterou os desfechos.

Onde a evidência ainda discorda: a imersão

Aqui não há consenso, e seria desonesto fingir que há.

Soleimani concluiu que a RV totalmente imersiva obteve os maiores ganhos na motricidade grosseira, com as abordagens não imersivas a destacarem-se na destreza fina.

Mas a meta-análise em rede de Zhang et al. (2025), com 34 ensaios e 1704 participantes, ordenou as modalidades de outra forma: o Microsoft Kinect foi o mais eficaz na função motora do membro superior, seguido da Nintendo Wii e da RV não imersiva, e os dispositivos imersivos de cabeça não mostraram diferença estatisticamente significativa face à terapia convencional.

E Kenea et al. (2025), sobre RV imersiva, encontrou melhorias estatisticamente significativas na escala Fugl-Meyer e no Box and Block Test que, nas palavras dos próprios autores, não atingiram os limiares de significado clínico.

Uma diferença estatisticamente significativa não é automaticamente uma diferença que o doente sente. É uma distinção que vale a pena exigir de qualquer fornecedor de tecnologia de saúde, incluindo nós.

E o custo? Estes estudos não respondem

Vale a pena dizê-lo com clareza: nenhuma destas seis revisões mediu custos, tempo até à alta ou retorno do investimento. Medem função motora, equilíbrio, destreza, independência e qualidade de vida.

Existe evidência económica sobre RV em saúde, mas incide sobretudo em dor e internamento, não no AVC. A pergunta "a RV torna a reabilitação do AVC mais barata?" continua, honestamente, em aberto, e desconfie de quem lhe disser o contrário sem citar um estudo.

O que isto significa na prática

Lendo as seis em conjunto, o padrão que emerge é razoavelmente claro:

  1. A RV é um complemento, não um substituto. O ganho vem sobretudo de mais dose de terapia, com supervisão clínica.
  2. Começar cedo e manter. Primeiros seis meses, programas acima de seis semanas.
  3. A modalidade importa e ainda está em discussão. Quem afirmar o contrário está a vender, não a citar.
  4. O caso económico ainda não está feito para o AVC especificamente.

O RVer é um sistema de realidade virtual concebido para ser utilizado sob supervisão de profissionais de saúde, como complemento não farmacológico dos programas de reabilitação existentes, nunca em substituição de cuidados médicos. O módulo de movimento guiado, RVer Motion, está em desenvolvimento e não está abrangido pelo registo Classe I, que cobre o produto base.

As seis revisões citadas estão ligadas ao longo do artigo, e as restantes referências estão no tema reabilitação da biblioteca: cinco têm texto integral livre no PubMed Central e a sexta tem resumo aberto no PubMed. Não é preciso acreditar em nós: leia as fontes.

O mesmo exercício, feito para outra condição neurológica: realidade virtual e doença de Parkinson.

Perguntas frequentes

A realidade virtual substitui a fisioterapia depois de um AVC?

Não. O achado mais consistente da revisão Cochrane de 2025 é que o benefício é mais claro quando a RV é acrescentada aos cuidados habituais, aumentando o tempo total de terapia, do que quando os substitui. É um complemento usado sob supervisão clínica.

Quando se deve começar a usar RV na reabilitação do AVC?

A meta-análise de Soleimani et al. (2024) concluiu que iniciar nos primeiros seis meses após o AVC otimizou os desfechos, e que programas com mais de seis semanas deram melhores resultados. Villarroel et al. (2025) encontrou ganhos mais pronunciados nas fases aguda e subaguda.

A realidade virtual imersiva é melhor do que a não imersiva?

A evidência é contraditória. Soleimani et al. (2024) encontrou os maiores ganhos na motricidade grosseira com RV totalmente imersiva, mas a meta-análise em rede de Zhang et al. (2025) não encontrou diferença estatisticamente significativa para dispositivos imersivos de cabeça. É uma questão em aberto na literatura.

A realidade virtual torna a reabilitação do AVC mais barata?

Nenhuma das seis revisões analisadas mediu custos, tempo até à alta ou retorno do investimento. Existe evidência económica sobre RV em saúde, mas incide sobretudo em dor e internamento, não especificamente no AVC.

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