Há um número em quase todas as apresentações sobre envelhecimento em Portugal: a esperança de vida subiu. É verdade e é boa notícia. Há um segundo número que aparece muito menos, e que muda a conversa toda.
Em Portugal, uma pessoa que chega aos 65 anos tem em média cerca de vinte anos de vida pela frente — e cerca de oito deles em boa saúde. Os dados de 2023 apontam para perto de 8,4 anos saudáveis depois dos 65, com as mulheres a viverem mais anos no total e menos anos com saúde do que os homens. Portugal está abaixo da média europeia neste indicador, ao contrário do que acontece na esperança de vida total.
A diferença entre os dois números anda pelos doze anos. Não é uma abstração estatística. São doze anos por pessoa, multiplicados por mais de dois milhões e meio de pessoas com 65 ou mais anos — perto de um quarto da população residente.
Doze anos é onde está o setor
Vale a pena perceber de que anos estamos a falar, porque a resposta define quem trabalha lá dentro:
- lares e estruturas residenciais, onde a pessoa passa a viver;
- cuidados continuados, a RNCCI, onde se recupera função ou se estabiliza;
- apoio domiciliário, quando a casa ainda dá;
- cuidados paliativos, quando o objetivo deixa de ser prolongar e passa a ser confortar.
Nenhuma destas respostas existe para acrescentar anos saudáveis. Existem todas para tornar habitáveis os anos que não são saudáveis. É uma missão diferente, e é frequentemente avaliada com os indicadores errados.
O que a tecnologia costuma prometer, e o que devia prometer
Quase toda a tecnologia vendida ao setor do envelhecimento é vendida do lado da prevenção: prevenir quedas, prevenir declínio, adiar a dependência. É um mercado legítimo e, quando funciona, é o melhor investimento que há.
Mas o discurso da prevenção tem um efeito colateral: deixa sem linguagem quem trabalha nos doze anos. Uma direção técnica de um lar não está a prevenir grande coisa — está a cuidar de pessoas que já atravessaram esse ponto. E quando todo o material promocional fala de prevenir, o que sobra é a sensação de que cuidar bem é um prémio de consolação.
Não é. Melhorar um dia mau é um resultado, não um paliativo do discurso.
Onde é que a realidade virtual entra — e onde não entra
Vamos ser diretos, porque é a única forma de isto ser útil.
O que a RVer não faz:
- não acrescenta anos de vida saudável. Não há nada na literatura que sustente isso, e nós não o afirmamos;
- não previne dependência, fragilidade ou quedas;
- não substitui exercício, fisioterapia, nutrição ou convívio — que são as intervenções com evidência mais sólida do lado da prevenção;
- não é uma intervenção de saúde pública. É um sistema usado numa sessão, com uma pessoa, sob supervisão de quem cuida.
O que faz, e é o que temos: ambientes imersivos usados dentro daqueles doze anos, como complemento não farmacológico, sob decisão da equipa clínica — momentos de calma, de reminiscência, de distração durante um procedimento incómodo, de presença da família à distância. Cada sessão fica registada, o que dá à equipa uma coisa que raramente tem: um registo do que se fez e quando.
A investigação publicada nesta área é sobretudo de bem-estar, ansiedade, dor e qualidade de vida, não de longevidade. Reunimo-la, com os temas e as contagens à vista, na biblioteca de estudos. E onde a evidência é fraca, dizemo-lo lá.
O indicador que falta às instituições
Se a missão é a qualidade dos anos e não a quantidade, os indicadores deviam segui-la. Na prática, quase nenhuma instituição mede o que faz nesse eixo — mede ocupação, incidentes e horas de cuidado, que são indicadores de operação.
Não temos uma solução fechada para isto, e desconfie de quem tiver. Temos uma observação: quando uma equipa começa a registar sessões de qualquer atividade não farmacológica, ganha pela primeira vez uma série temporal sobre a qual discutir. Não prova efeito. Permite conversar com dados em vez de impressões, e já é mais do que existia.
Em resumo
- Cerca de vinte anos depois dos 65, cerca de oito com saúde. Portugal está abaixo da média da UE neste indicador.
- A diferença é o terreno de trabalho dos lares, dos continuados, do domicílio e dos paliativos.
- A realidade virtual não encurta essa diferença. Trabalha lá dentro.
- Quem lhe prometer anos saudáveis com um visor está a extrapolar.