O relatório da Comissão da OMS para a Conexão Social pôs números numa coisa que o setor social já sabia: uma em cada seis pessoas no mundo sente-se só, e a solidão está associada a cerca de 871 mil mortes por ano — perto de cem por hora.
O mesmo relatório traz um dado que costuma apanhar as pessoas desprevenidas. Contra a imagem que quase toda a gente tem, os níveis mais altos de solidão não estão nos mais velhos: estão nos adolescentes entre os 13 e os 17 anos, com cerca de 21%. A solidão não é uma doença da velhice.
O que é desproporcionado na idade avançada é outra coisa: o isolamento social, que se estima afetar até um em cada três idosos, e que na Europa convive com perto de 20% das pessoas mais velhas a viverem sozinhas.
Duas coisas diferentes, e é aqui que os programas falham
- Isolamento social é objetivo. Conta-se: quantos contactos, com que frequência, que rede. Pode ser medido por fora.
- Solidão é subjetiva. É a distância entre o contacto que a pessoa tem e o que gostaria de ter. Só a própria pessoa a reporta.
Uma pessoa pode estar num lar cheio, com atividades todos os dias, rodeada de gente, e estar profundamente só. E pode viver sozinha numa aldeia, ver duas pessoas por semana, e não se sentir só de todo.
Isto tem uma consequência prática que se ignora muito: quase todas as intervenções tecnológicas atacam o isolamento, porque é o que se consegue contar. Adicionam contactos. Se o problema da pessoa era a solidão, adicionar contactos pode não fazer nada — e o programa vai reportar sucesso à mesma, porque mediu a variável errada.
O que a evidência aponta como forte
Sem rodeios: as intervenções com melhor sustentação não são tecnológicas. São programas de contacto humano — de grupo, com propósito, mantidos no tempo —, ligação à comunidade e o que a literatura arruma como intervenções psicológicas quando há sofrimento instalado. Contacto com a natureza e com animais aparece com sinal positivo em vários trabalhos.
Se a sua instituição tem de escolher onde pôr dinheiro para atacar solidão, comece por aí, não por um visor. Dizemo-lo enquanto fabricante de visores.
O que a realidade virtual faz nesta conversa
Feita a ressalva, há duas coisas concretas em que um sistema como o RVer toca o problema — e nenhuma delas é «curar a solidão».
Presença da família, à distância. Durante a sessão, o doente pode estar em videochamada com a família: vê e ouve os familiares dentro da experiência, e do outro lado a família acompanha em tempo real o cenário que ele está a ver, do telemóvel ou do computador. Para quem tem família longe, emigrada, ou impedida de visitar, isto não é um contacto adicional genérico — é o contacto que faltava, com as pessoas certas. É a funcionalidade mais pedida por quem usa o sistema.
Reminiscência. Levar alguém ao sítio onde viveu, à romaria da terra, ao mar onde ia em criança. A literatura em demência nesta área é sobretudo de bem-estar e reminiscência, e o que a equipa observa não é «menos solidão» — é conversa. A pessoa fala, quem cuida ouve coisas que não sabia, e a relação entre as duas muda um bocado. Isso é ligação social, mesmo que o indicador não tenha nome.
Onde perde, com todas as letras
- Um ecrã não é companhia. Um cenário bonito visto sozinho é uma pessoa sozinha a ver um cenário bonito.
- A sessão de realidade virtual é individual. Não é atividade de grupo, e as atividades de grupo são precisamente das que têm mais sustentação. Onde há uma sala Snoezelen ou um programa de grupo a funcionar, isso não se substitui.
- Não há ensaios que digam que a realidade virtual reduz solidão como desfecho clínico. Há trabalhos pequenos e promissores sobre bem-estar e humor. Quem lhe apresentar isto como intervenção contra a solidão está a ir além do que existe.
- O RVer não avalia nem diagnostica estados emocionais. Regista sessões.
O que fazer com isto na segunda-feira
Se a solidão é um tema declarado na sua instituição, três passos que não custam dinheiro:
- Separe as duas coisas no que já mede. Contactos por semana é isolamento. Perguntar à pessoa se se sente só é outra coisa, e há escalas curtas validadas para isso.
- Veja quem não recebe visitas. É a lista mais acionável que existe, e costuma estar na cabeça de alguém em vez de estar escrita.
- Só depois pergunte que ferramentas ajudam — e exija que cada fornecedor lhe diga qual das duas está a atacar.
Em resumo
- Solidão e isolamento não são a mesma coisa, e a maioria dos programas mede o segundo.
- A solidão não é sobretudo dos idosos; o isolamento social é que pesa mais na idade avançada.
- As intervenções mais fortes são humanas.
- A realidade virtual toca o problema em dois pontos — família à distância e reminiscência — e não substitui presença.