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Quando o lugar da pessoa não está na biblioteca: como se escolhe um cenário de reminiscência

O lugar daquela pessoa não está na biblioteca, e não vai estar. Isso não termina a sessão de reminiscência: muda a unidade de escolha, que quase nunca é o nome do sítio.

Tema
Estimulação Cognitiva
Leitura
6 min de leitura
Publicado
2 de setembro de 2026
Autoria
Pedro Thomaz
Âmbito
Produto base · Classe I

Nesta página

A reminiscência não funciona por causa da imagem. Funciona por causa do reconhecimento. A pessoa vê um sítio, o sítio devolve-lhe qualquer coisa, e é isso que abre a conversa. Sem reconhecimento, um cenário bonito é só um cenário bonito.

O que se segue daí é o problema prático que aparece em quase todos os lares na segunda semana de utilização: o lugar daquela pessoa não está na biblioteca. Não está a rua dela, não está a aldeia dela, não está a casa onde criou os filhos. E não vai estar: nenhum catálogo cobre biografias.

O erro que se comete primeiro

O erro é tratar a biblioteca como se fosse o álbum de fotografias da pessoa, e desistir quando não é. A equipa procura «Trás-os-Montes», não encontra a aldeia certa, e conclui que a reminiscência não serve para aquele utente.

Serve. Só que a unidade de reconhecimento raramente é o topónimo.

Três substituições que funcionam

1. O tipo de lugar, não o lugar. Quem cresceu à beira-mar reconhece um porto de pesca que nunca viu. Quem passou a vida no campo reconhece um caminho de terra batida com muros de pedra. O cérebro não está a validar coordenadas: está a reconhecer uma categoria de sítio onde já esteve muitas vezes.

2. A época e a estação. Uma vindima, uma feira, uma procissão, neve, uma matança, o Verão de uma praia cheia. O calendário é uma das últimas coisas a apagar-se e traz consigo o resto.

3. A atividade, não a paisagem. Alguém que foi sapateiro, costureira, pescador ou motorista reconhece o gesto antes de reconhecer o sítio. Escolher pelo que a pessoa fez, e não pelo sítio onde viveu, muda o resultado de muitas sessões.

O que não fazer

Não insistir num lugar «parecido» quando a pessoa já disse que não é. Se ela corrige, «isso não é a minha terra», a correção é informação, não resistência. Anota-se e muda-se de cenário.

Não corrigir a pessoa. Se ela diz que aquela praia é a da Nazaré e não é, a sessão não é sobre geografia. Corrigir custa a conversa toda e não devolve nada.

Não usar a biblioteca às cegas. As perguntas fazem-se antes da sessão, à família ou no processo, e não durante. «Onde é que nasceu, onde é que trabalhou, onde é que passava férias, o que é que fazia ao domingo»: quatro perguntas que resolvem a escolha de cenário durante meses. É o mesmo princípio que está em como se escolhe um cenário.

E quando não resulta mesmo

Resulta em muita gente e não resulta em toda a gente. Há utentes para quem o reconhecimento não acontece: por fase da doença, por biografia que ninguém conhece, ou simplesmente porque não. Nesses casos a sessão continua a valer pelo conforto e pela atividade, que é uma proposta diferente e menor, e que deve ser dita como tal em vez de ser vendida como reminiscência.

O registo é que fecha o ciclo

Escolher bem é metade. A outra metade é saber o que resultou. O que correu bem com aquele utente fica no registo da sessão (conteúdo escolhido, duração real, como terminou) e a leitura é sempre da equipa. Passadas três ou quatro sessões, o padrão está lá: esta pessoa responde ao mar, esta ao campo, esta a nada disto. Ver o que a equipa clínica vê no registo de sessão.

Onde a RVer perde, e convém dizê-lo

Não filmamos a rua de cada utente. Não há forma de o fazer à escala e quem prometer isso está a prometer uma equipa de filmagem por residente.

E há um limite maior: a maior parte da nossa biblioteca foi filmada em Portugal e na Europa. Para um utente português é uma vantagem. Para um utente que nunca cá esteve, a reminiscência propriamente dita deixa de estar em cima da mesa e o que fica é a primeira coluna da tabela seguinte: atividade, conforto, novidade. São coisas boas, mas não são a mesma coisa, e um catálogo europeu não se vende como biografia universal.

O que o cenário faz Precisa de reconhecimento?
Atividade e conforto Não
Novidade e conversa Não
Orientação para a conversa sobre a vida Ajuda muito
Reminiscência propriamente dita Sim

A biblioteca é validada e organizada pela equipa clínica, ver biblioteca validada, e o critério de escolha, esse, continua do lado de quem conhece a pessoa.

O papel do RVer

O produto base da RVer é uma biblioteca de vídeo imersivo, registada como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED e na EUDAMED. A plataforma regista a sessão: não avalia, não classifica, não diagnostica e não substitui a avaliação clínica nem a decisão da equipa. A escolha do cenário é de quem acompanha a pessoa.

Perguntas frequentes

A reminiscência só funciona se o cenário for do sítio exato da pessoa?

Não. O que abre a conversa é o reconhecimento, e ele raramente depende do topónimo. Quem cresceu à beira-mar reconhece um porto de pesca que nunca viu; quem viveu no campo reconhece um caminho de terra com muros de pedra. A unidade útil é o tipo de lugar, a época do ano ou a atividade, não o nome da terra.

O que perguntar à família antes de escolher um cenário?

Quatro perguntas resolvem meses de escolhas: onde nasceu, onde trabalhou, onde passava férias e o que fazia ao domingo. As perguntas fazem-se antes da sessão, à família ou a partir do processo, não durante a sessão, que é para a pessoa e não para o inquérito.

E se o utente disser que aquele sítio não é o dele?

Anota-se e muda-se de cenário. A correção é informação útil, não resistência. E não se corrige a pessoa: se ela nomear mal a praia, a sessão não é sobre geografia, e corrigir custa a conversa toda.

A RVer filma o lugar de cada utente?

Não. Não há forma de o fazer à escala: seria uma equipa de filmagem por residente. A biblioteca cobre tipos de lugar, épocas e atividades, e a escolha faz-se a partir daí.

A biblioteca serve utentes que nunca viveram na Europa?

Para atividade, conforto e conversa, sim. Para reminiscência propriamente dita, não: a maior parte da biblioteca foi filmada em Portugal e na Europa, e sem reconhecimento a proposta é outra: menor e diferente. Vale a pena dizê-lo em vez de vender uma coisa pela outra.

O que fica registado destas escolhas?

O conteúdo escolhido e efetivamente reproduzido, a duração real e como a sessão terminou. É um registo da atividade: a RVer não pontua, não classifica e não interpreta. Passadas três ou quatro sessões, o padrão de preferências de cada utente é legível pela equipa.

Um caso concreto?

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