Uma revisão bibliométrica publicada este ano contou a literatura sobre terapia de exposição em realidade virtual: 76 publicações em 2015, 281 em 2025, uma taxa de crescimento anual de cerca de 14%. Quase quatro vezes mais artigos em dez anos.
É um número bom para um slide e é um número perigoso para uma decisão de compra. Vale a pena separar as duas coisas.
O que o número diz
Diz que o campo deixou de ser marginal. Há dez anos, propor realidade virtual numa reunião clínica era uma conversa sobre ficção científica; hoje há literatura suficiente para uma revisão sistemática ter trabalho a fazer.
Diz também onde está concentrada: a exposição gradual em perturbações de ansiedade e em stress pós-traumático é, de longe, a área mais estudada. É onde há protocolos, ensaios aleatorizados e meta-análises.
O que o número não diz
Não diz que os resultados são bons. Volume de publicações e qualidade de evidência são eixos diferentes. Um campo pode crescer depressa porque é fácil publicar estudos pequenos, com amostras de trinta pessoas e sem grupo de controlo ativo.
Não diz que se aplica ao que você quer fazer. A maior parte desta literatura é sobre exposição terapêutica — ambientes construídos para confrontar gradualmente um medo específico, conduzidos por um psicólogo, dentro de um protocolo. Isso é uma coisa muito diferente de pôr um senhor de 84 anos a ver a Ribeira do Porto numa tarde de quinta-feira.
Nós próprios mantemos essa distinção explícita, e ela dá nome a um artigo inteiro: realidade virtual e saúde mental são duas coisas diferentes.
Citar a literatura da exposição para justificar uma sessão de relaxamento é a mesma manobra que citar ensaios de morfina para vender chá. Os dois são consumidos por via oral.
O que fazer com isto numa decisão de compra
Três perguntas que qualquer fornecedor deve conseguir responder sem se enrolar:
- Os estudos que me está a mostrar são sobre o mesmo uso que me propõe? Exposição terapêutica, distração durante procedimento e atividade significativa em demência são três literaturas distintas.
- O produto está registado para quê? A RVer é dispositivo médico Classe I (produto base) no Infarmed. O registo abrange o produto base — os módulos em desenvolvimento não estão abrangidos, e dizemos isso em todo o lado, incluindo quando não ajuda a venda.
- O que é que o fornecedor afirma por escrito? Uma afirmação de eficácia escrita num folheto é uma afirmação regulamentar, não uma frase de marketing. Se está lá, tem de ser sustentada.
A posição que tomamos
A RVer não afirma tratar, reduzir sintomas ou substituir cuidados. É um sistema de realidade virtual para uso clínico, usado por equipas clínicas em contextos de dor, reabilitação, ansiedade, estimulação cognitiva, cuidados paliativos e saúde mental. Quem decide para que serve, em que doente e em que momento, é o clínico.
O crescimento da literatura é uma boa notícia para o campo. Não é uma prova sobre um produto — nem sobre o nosso.
Fonte: revisão sistemática e análise bibliométrica das aplicações clínicas e tendências de investigação em terapia de exposição em realidade virtual, Frontiers in Virtual Reality, 2026.