Uma criança não processa um internamento como um adulto. Não consegue racionalizar a necessidade de um procedimento nem relativizar o desconforto. O que sente é mais direto: medo do desconhecido, ansiedade perante o que aí vem. Acompanhar uma criança em contexto hospitalar exige ferramentas que falem a sua linguagem, e a realidade virtual para uso clínico fala-a particularmente bem.
Porque a RV funciona tão bem com crianças
A realidade virtual combina dois elementos a que as crianças respondem naturalmente: imersão e brincadeira. Em vez de pedir a uma criança que "fique quieta e não pense no que vai acontecer", oferece-lhe um lugar para onde ir com a imaginação.
- A imersão é total: o campo de visão é substituído, afastando os estímulos clínicos que assustam.
- O envolvimento é ativo: olhar à volta, explorar e reagir mantém a criança ocupada de forma genuína.
- A linguagem é familiar: o registo do jogo e da fantasia é aquele em que a criança já vive.
Para uma criança, não estar a "ser tratada" mas a "estar noutro lugar" muda completamente a forma como o momento é vivido.
O mecanismo: distração que reduz o medo
Tal como na gestão da dor, a atenção é um recurso limitado. Quando a criança está totalmente envolvida num ambiente imersivo, sobra menos atenção para o medo e para o desconforto do procedimento. Esta distração não engana a criança, apenas lhe dá um lugar melhor onde focar a atenção enquanto a equipa faz o seu trabalho.
Contextos pediátricos relevantes
- Procedimentos de curta duração, como punções, pensos ou pequenas intervenções.
- Períodos de espera, frequentemente carregados de ansiedade antecipatória.
- Momentos de desconforto durante o internamento, em que distrair ajuda a acalmar.
Nota importante: a realidade virtual para uso clínico em pediatria é uma abordagem complementar, usada com conteúdos e tempos adequados à idade e sempre sob supervisão de profissionais de saúde. Não substitui o acompanhamento dos pais, a avaliação clínica nem a presença da equipa.
O que dizem os estudos
A distração por realidade virtual em procedimentos pediátricos é das áreas mais estudadas da realidade virtual em saúde. Alguns exemplos da nossa biblioteca de estudos:
- Três meta-análises (Eijlers et al., 2019; Nordgård e Låg, 2021; Tas et al., 2022) reúnem dezenas de estudos em crianças e jovens e reportam menos dor e menos ansiedade durante procedimentos com realidade virtual. Nordgård e Låg observaram efeitos maiores com realidade virtual não interativa, como o vídeo imersivo.
- Picadas e cateteres: dois ensaios aleatorizados em hospitais australianos (Chan et al., 2019) e dois ensaios com jovens dos 10 aos 21 anos, em colheitas de sangue (Gold e Mahrer, 2018) e na colocação de cateteres (Gold et al., 2021).
- Antes da cirurgia: uma visita virtual ao bloco operatório antes da anestesia (Ryu et al., 2017).
São estudos sobre realidade virtual em geral, com equipamentos e conteúdos próprios de cada equipa de investigação. Não são estudos do RVer, e os resultados são dos autores.
O papel do RVer
O RVer é um sistema de realidade virtual concebido para ambientes de saúde e registado como Dispositivo Médico Classe I (produto base) no INFARMED e na EUDAMED, com marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Foi desenhado para ser simples de usar pelas equipas clínicas e confortável para o doente, incluindo os mais novos, sem recolha de dados clínicos do paciente.
Em pediatria, o objetivo é tornar momentos difíceis um pouco mais leves: dar à criança um lugar para onde ir enquanto recebe os cuidados de que precisa.
O RVer usa-se a partir dos 10 anos. Sobre as restantes precauções, ver a realidade virtual faz mal?.
Perguntas frequentes
A realidade virtual é segura para crianças em contexto hospitalar?
Quando utilizada sob supervisão de profissionais de saúde, com conteúdos e tempos adequados à idade, a realidade virtual para uso clínico é uma abordagem não invasiva e não farmacológica. É sempre integrada no plano clínico e usada apenas quando apropriado para cada criança.
Em que situações pediátricas pode ajudar?
Pode ajudar a reduzir o medo e a ansiedade associados a procedimentos de curta duração (como punções ou pensos), períodos de espera e momentos de desconforto, captando a atenção da criança num ambiente imersivo e envolvente.
A realidade virtual substitui a presença dos pais ou da equipa?
Não. É uma ferramenta complementar. O acompanhamento dos pais e da equipa clínica continua a ser essencial; a realidade virtual apenas acrescenta uma forma de distração e conforto durante momentos difíceis.
