Nos últimos anos, hospitais de vários países (dos Estados Unidos ao Reino Unido, da Coreia do Sul ao Brasil) começaram a usar realidade virtual para uso clínico em alguns serviços. Há uma pergunta que aparece cedo em qualquer conversa com a gestão: isto encurta o internamento? A resposta honesta é que a evidência sobre o tempo de internamento é limitada e depende muito do contexto. Este artigo resume o que os estudos publicados analisaram, o que encontraram e o que ainda ninguém consegue afirmar.
Onde a realidade virtual já é usada nos hospitais
Os relatos publicados concentram-se em alguns serviços: pediatria (punções, pensos, exames de imagem), oncologia (sessões de tratamento longas), ortopedia e reabilitação, queimados, cuidados intensivos e preparação para cirurgia. Em quase todos, a realidade virtual entra como abordagem complementar e não farmacológica, ao lado do cuidado habitual e sob supervisão da equipa, e não como substituto de analgesia, sedação ou avaliação clínica.
Há serviços que a usam com regularidade e outros onde ficou pelo projeto-piloto. As duas coisas acontecem, e as duas dizem alguma coisa.
O que faz um internamento durar mais
O tempo de internamento não depende só da doença. Pesam também:
- dor mal controlada e ansiedade, antes e depois de procedimentos;
- imobilidade e perda de força, sobretudo em estadias longas;
- delírio e sono perturbado, frequentes em cuidados intensivos e em doentes mais frágeis;
- complicações e infeções que surgem pelo caminho;
- e fatores que nada têm de clínico: esperar por um exame, por transporte, por uma vaga na rede de cuidados continuados ou por apoio em casa.
A realidade virtual pode, quando muito, tocar em parte dos primeiros. Nos últimos não toca de todo, e em muitos hospitais são eles que mais dias somam.
O que os estudos observaram
- Dor e ansiedade em procedimentos. É onde a evidência é mais abundante. Há ensaios aleatorizados e revisões sistemáticas que observaram menos dor e ansiedade referidas durante procedimentos, em crianças e em adultos, com distração imersiva. A realidade virtual pode ajudar a gerir a dor e a ansiedade, mas os efeitos variam com o procedimento, a idade e o conteúdo, e há estudos que não encontraram diferença.
- Sono e agitação. Há estudos pequenos, sobretudo em cuidados intensivos, que exploraram ambientes calmos e imersivos para o sono e a agitação. Os resultados são preliminares e não permitem conclusões firmes.
- Mobilização. Existem estudos de reabilitação com exercício em realidade virtual, com resultados mistos. No RVer, o exercício acompanhado corresponde ao RVer Motion, um módulo em desenvolvimento e não abrangido pelo registo de dispositivo médico Classe I, que cobre apenas o produto base.
- Tempo de internamento. Poucos estudos o medem como resultado principal. Os que o medem vêm de contextos específicos, com amostras pequenas, e os resultados não são consistentes. Um procedimento mais tranquilo não se traduz automaticamente numa alta mais cedo.
O que ainda não se sabe
Não se sabe se a realidade virtual reduz o tempo de internamento de forma geral, nem em quanto. Não há base para prometer camas libertadas, menos fármacos ou retorno financeiro num serviço concreto. Na nossa biblioteca pública, apenas oito estudos são sobre custos e retorno, todos de contextos muito específicos, e os números deles não se transferem para outro hospital: a população, o comparador e quem paga são diferentes.
Explicámos isto com mais detalhe em «O ROI da realidade virtual que ninguém prova». A conclusão não é que não haja valor. É que o valor tem de ser medido no seu serviço, com métricas decididas antes de começar.
O que um gestor pode medir
Em vez de partir de um número de poupança, um piloto bem desenhado responde a perguntas de implementação: quantas sessões se fazem por semana, quanto tempo de equipa consomem (cronometrado, não estimado), quantos utentes recusam ou interrompem, e em que serviços a ferramenta entra mesmo na rotina. Um piloto não demonstra eficácia clínica e não deve ser apresentado como tal. Sobre isso, ver como correr um piloto num serviço de saúde.
Onde entra o RVer
O RVer é um sistema de realidade virtual para uso clínico cujo produto base, a biblioteca de vídeo 360°, está registado como Dispositivo Médico Classe I no INFARMED (CDM 94571546) e na EUDAMED (Basic UDI-DI 56006195127RVERTZ), com marcação CE ao abrigo do MDR 2017/745. Os módulos RVer Motion, RVer Neuro e RVer Exposure estão em desenvolvimento e não estão abrangidos por esse registo. O registo também não é um argumento de eficácia.
Funciona offline, não depende dos sistemas informáticos do hospital e não recolhe dados clínicos do utente. É usado sempre com um profissional presente, com utentes dos 10 aos 100 anos. Não prescreve, não avalia, não diagnostica e não substitui o cuidado habitual. Os estudos estão na biblioteca pública, incluindo os de resultados fracos ou neutros, e o que o registo abrange está em Ciência e regulação.
Nota importante: a realidade virtual para uso clínico é uma abordagem complementar e não farmacológica, apresentada com base na evidência disponível e usada sob supervisão de profissionais de saúde. Não substitui tratamentos comprovados, avaliação clínica ou prescrição médica. Este artigo é informativo e não constitui aconselhamento clínico.
Perguntas frequentes
A realidade virtual reduz o tempo de internamento?
Não se sabe de forma geral. Poucos estudos medem o tempo de internamento como resultado principal, vêm de contextos específicos e os resultados não são consistentes. A evidência mais sólida é sobre dor e ansiedade durante procedimentos, e mesmo aí os efeitos variam.
Em que serviços hospitalares se usa realidade virtual?
Os relatos publicados concentram-se em pediatria, oncologia, ortopedia e reabilitação, queimados, cuidados intensivos e preparação para cirurgia, sempre como abordagem complementar ao cuidado habitual e sob supervisão da equipa.
É possível saber de antemão quanto um hospital poupa?
Não. Há poucos estudos económicos (oito na nossa biblioteca pública) e os números deles não se transferem para outro hospital, porque a população, o comparador e quem paga são diferentes. O que um piloto pode medir são sessões por semana, tempo de equipa e recusas.
O RVer substitui analgesia, sedação ou avaliação clínica?
Não. O RVer é uma abordagem complementar e não farmacológica, usada sempre com um profissional presente. Não prescreve, não avalia e não diagnostica. O registo de dispositivo médico Classe I abrange o produto base, a biblioteca de vídeo 360°, e não é um argumento de eficácia.
